“Todos os governos só trabalharam em função da Odebrecht”, afirma Palocci

O juiz federal Sérgio Moro colheu o depoimento do ex-ministro Antonio Palocci e de seu ex-assessor Branislav Kontic na sede da Justiça Federal na manhã desta quinta-feira (20). Ambos são réus no processo referente a 35º fase da Operação Lava Jato, batizada de Omertà e respondem por crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Sobre a relação com a Odebrecht, Palocci afirmou que atualmente percebe que todos os governos trabalharam em função da empreiteira.

O ex-ministro falou ao juiz por quase duas horas. No fim do depoimento, Palocci declarou que nunca pediu recursos financeiros para empresas na condição de ministro, nem fora do Brasil, e que não operou caixa 2, mas que sabe de sua existência em todas as campanhas. “Não me sinto na condição de falar o que todo mundo está falando, que ‘nada existiu e que foi aprovado nos tribunais’, todo mundo sabe que houve caixa 2 em todas as campanhas”, declarou o ex-ministro.

Na oitiva, Palocci falou sobre a crise econômica que atingiu o país no período em que foi deputado e, depois, ministro nos governos de Lula e Dilma e sobre a intensa rotina de reuniões com empreiteiros, entre eles empresários da Brasken e da Odebrecht.

Ele também afirmou que foi contrário a aprovação da Medida Provisória 460/2009, que segundo a Polícia Federal (PF) foi encomendada pela Odebrecht para proporcionar benefícios fiscais e aumentar a linha de crédito junto ao BNDES.

Durante o depoimento, Palocci também se defendeu da acusação do Ministério Público Federal (MPF) que lhe aponta como sendo o “Italiano” na planilha de pagamento de propinas da Odebrecht. Ele usou fotos e e-mails juntados pela defesa para argumentar que ele não seria a pessoa que recebeu o codinome. Entre eles está uma mensagem interceptada no e-mail de Marcelo Odebrecht que afirma que “italiano” não estava na diplomação da ex-presidente Dilma Rousseff e apresentou fotos mostrando que ele estava na cerimônia.

Confira o depoimento na íntegra:

Já no fim da terceira parte do depoimento, Palocci diz que observando o cenário atualmente “todos os governos trabalharam em função da Odebrecht”. “Olhando o cenário de hoje parece que vários governos, não só o governo em que participei, todos os governos, só trabalham em função da empresa Odebrecht”, declarou. Segundo Palocci, logo que assumiu o cargo de ministro da Fazenda, ele teve que lidar com a queda de 7% no setor da construção civil. “Nós fizemos uma legislação especifica para o setor de construção civil. […] O governo muitas vezes salva empresas”, disse.

Palocci também foi questionado sobre as doações da Odebrecht para campanhas políticas do Partido dos Trabalhadores. O ex-ministro argumentou que as doações de empresas fazem parte do processo democrático e que a empresa também fez doações para partidos adversários e inclusive para que candidatos nanicos criticassem o partido.

“Aqui está sendo muito discutido a relação da Odebrecht com o PT, mas se for olhar ao longo da história a Odebrecht fez doações identicas ao PSDB, e muitas vezes superiores. Agora ficamos sabendo que fizeram pagamentos a candidatos nanicos atacarem o PT”, afirmou Palocci.

Os depoimentos de hoje são os últimos desta fase do processo. Agora, as defesas devem solicitar diligências complementares e, em seguida, Moro deve determinar um prazo para as alegações finais e então determinar a sentença.

Acusação contra Palocci

Em depoimento a Moro, o delator e empresário Marcelo Odebrecht, responsável pela empreiteira, confirmou que Palocci é o “Italiano” que aparece nas planilhas de pagamentos do Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht, considerado pela Lava Jato como o setor de pagamento de propinas da empresa.

 

Em depoimento prestado na terça-feira (18) a publicitária Mônica Moura afirmou que o ex-ministro era quem a encaminhava quem iria receber os valores de caixa 2.

 

Palocci está preso desde o dia 26 de setembro na carceragem da Polícia Federal, em Curitiba. Kontic foi preso no mesmo dia, mas liberado em 15 de dezembro após decisão do Tribunal Regional Federal da 4ª Região.

Denúncia

Segundo a denúncia do Ministério Público Federal (MPF), o ex-ministro Palocci estabeleceu uma ligação com altos executivos da Odebrecht com o objetivo de atender aos interesses do grupo diante do governo federal. Isso aconteceu entre 2006 e 2015.

Segundo as investigações, a interferência de Palocci teria se dado mediante o pagamento de R$ 128 milhões em propinas. Os recursos eram destinados principalmente ao Partido dos Trabalhadores (PT).

 

Ainda de acordo com o MPF, o ex-ministro também teria participado de uma conversa sobre a compra de um terreno pra a sede do Instituto Lula, feita pela Odebrecht.

A ação penal decorrente da Operação Omertà tem 15 réus, entre eles Palocci e o herdeiro do Grupo Odebrecht, Marcelo Odebrecht.

Palocci está preso desde setembro de 2016, na carceragem da Polícia Federal, em Curitiba e responde por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

uol

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