Em 1990, 13 obras avaliadas em cerca de R$ 2,8 bilhões foram roubadas por dois homens em exatos 81 minutos
Na última semana, um roubo em São Paulo, na Biblioteca Mário de Andrade, chamou atenção nacional. Dois ladrões entraram no local e levaram treze gravuras de Henri Matisse e Candido Portinari de um mesmo setor da exposição. O roubo aconteceu meses após o mesmo ocorrido no Louvre, o museu mais visitado do mundo. Em outubro, ladrões também entraram no local sem serem percebidos, e roubaram joias avaliadas em mais de US$ 100 milhões.
Roubos de peças raras em locais famosos como museus internacionalmente conhecidos, no entanto, não é algo incomum. Há 35 anos, um roubo ocorrido no Museu Isabella Stewart Gardner, em Boston, nos Estados Unidos, se tornou o “maior roubo de arte do mundo” e, até hoje, segue sem solução.
Apesar de diversas linhas de investigação e suspeitas, que incluem desde funcionários com acesso ao prédio até integrantes da máfia, as autoridades nunca conseguiram identificar os responsáveis nem localizar as obras. Até hoje, o museu mantém molduras vazias nos locais onde as obras estavam expostas, como símbolo da espera por sua recuperação, além de continuarem oferecendo uma recompensa de US$ 10 milhões (aproximadamente R$ 56 milhões) por informações que levem à devolução de todas as peças.
O roubo
Na madrugada de 18 de março de 1990, dois homens usando uniformes da polícia bateram à porta do Museu Isabella Stewart Gardner, em Boston, no estado de Massachusetts, nos Estados Unidos. Eles informaram aos seguranças que estavam apurando denúncias de confusão nas imediações do museu.
De acordo com o chefe de segurança do museu, Anthony Amore, em depoimento em áudio divulgado pela instituição, os dois homens foram vistos dentro de um carro estacionado perto de uma entrada lateral do museu por volta de 0h30. Às 1h24, se aproximaram da entrada da área de segurança.
“Pelo interfone, disseram que atendiam a uma ocorrência de desordem. A explicação parecia plausível, já que ainda havia foliões nas ruas por causa do feriado”, afirma Amore.
Em desacordo com as normas de segurança, o vigilante Richard Abath abriu a porta para os supostos agentes, permitindo o acesso à área interna do museu.
“Assim que entraram, eles renderam os guardas, taparam seus olhos e bocas com fita adesiva e os levaram ao porão, algemados e separados”, descreve Amore.
Durante mais de uma hora, os criminosos circularam por diferentes galerias, retirando obras de suas molduras — algumas delas cortadas com lâminas — e deixando estilhaços de vidro espalhados pelo chão.
Entre os itens levados estavam obras de grande valor histórico, como Cristo na Tempestade no Mar da Galileia (1633) e Dama e Cavalheiro de Preto, ambas de Rembrandt, além de O Concerto (1663–1666), de Johannes Vermeer.
Uma curiosidade que intrigou os investigadores foi que os ladrões deixaram peças valiosas para trás enquanto levaram outras de menor valor.
Para Amore, isso indica que os criminosos “não eram especialistas em arte”.
Os ladrões deixaram o museu às 2h45, após realizarem duas viagens até o carro para transportar as obras.
“Eles permaneceram 81 minutos dentro do museu. É um tempo absurdo. A maioria dos roubos de arte dura de cinco a dez minutos”, destaca Amore.
Investigação
Os vigilantes só foram libertados após a chegada da polícia, por volta das 8h15 da manhã. Dias após o roubo, o FBI divulgou retratos falados e descreveu os suspeitos como dois homens brancos, de cabelos e olhos escuros.
Desde o início, o vigilante que deixou os ladrões entrarem levantou suspeitas. À época com 23 anos, ele teria aberto e fechado rapidamente uma das portas do museu antes do roubo, o que alguns interpretaram como um possível sinal aos criminosos.
Também chamou atenção o fato de que sensores de movimento na Sala Azul registraram apenas a presença de Abath durante uma ronda, e não a dos ladrões, enquanto uma obra desapareceu do local.
Em entrevistas posteriores, Abath admitiu que, em algumas ocasiões, compareceu ao trabalho alcoolizado ou após usar drogas, além de ter permitido a entrada de amigos no museu fora do horário de funcionamento.
Segundo ele, o emprego oferecia tempo livre para se dedicar à música, sua principal paixão. Apesar disso, sempre negou envolvimento no roubo e afirmou que suas atitudes naquela madrugada decorreram de falta de treinamento. Abath nunca foi formalmente acusado.
Teorias sobre o crime
Ao longo dos anos, surgiram hipóteses envolvendo máfias e gangues locais, que teriam transportado as obras para outras cidades. Um dos nomes frequentemente citados foi o de James “Whitey” Bulger, um dos chefões do crime em Boston, mas nunca houve provas de sua participação. Bulger foi morto em 2018.
Outro suspeito recorrente foi Myles Connor Jr., conhecido ladrão de arte, que estava preso na época, mas que, segundo algumas teorias, poderia ter planejado o crime de dentro da cadeia.
Também se levantou a possibilidade de o mafioso Robert Donati ter arquitetado o roubo para trocar as obras pela libertação de um líder criminoso. Donati foi assassinado em 1991.
Já Carmello Merlino teria confidenciado a informantes que pretendia recuperar as peças para receber a recompensa. Ele morreu em 2005, enquanto cumpria pena por outro crime.
Em 2015, as autoridades apontaram George Reissfelder e Leonard DiMuzio como possíveis autores do roubo, mas ambos já haviam morrido em 1991.
Outros nomes citados ao longo dos anos incluem o ladrão de bancos Robert Guarente, morto em 2004; o criminoso irlandês Martin Foley, conhecido como “The Viper”; e os gângsters Louis Royce e David Turner.
Apesar das inúmeras pistas e suspeitas, ninguém jamais foi preso, e o paradeiro das obras permanece desconhecido.
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