Grupo de WhatsApp foi criado para pulverizar marcha “Acorda Brasil”, que estava sob a tutela de jovem empresário que se apresenta como diretor de marketing político de Pablo Marçal.
Amarcha de apoiadores que acompanhou o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) de Paracatu (MG) a Brasília, em fevereiro deste ano, não foi impulsionada apenas pela mobilização de rua. Investigação da Fórum mostra que, paralelamente ao trajeto de asfalto, operou uma estrutura digital coordenada para multiplicar conteúdo pró-deputado em escala massiva, com recrutamento de clipadores, distribuição de arquivos em alta qualidade, criação orientada de páginas e aprovação centralizada de vídeos.
Na prática, Nikolas Ferreira recrutou um verdadeiro exército de clipadores – jovens que, geralmente, são recrutados na internet, discord e cursos de “como ganhar dinheiro na internet” para participar de campeonatos de cortes – para manipular algoritmos e alcançar números estratosféricos nas redes sociais. Ao turbinar suas redes, o extremista mineiro ganhou capilaridade para negociar acordos políticos eleitorais e até mesmo bater de frente com Eduardo Bolsoanro (PL-SP).
No comando dessa engrenagem aparece Gabriel Schmidt, um jovem empresário que se apresenta como diretor de marketing político de Pablo Marçal (União). Em suas redes sociais, onde ostenta mais de 50 mil seguidores e a credencial de já ter gerado “+15 bilhões de views” – o que teria lhe rendido uma fortuna de R$ 40 milhões -, Schmidt convocou um “time oficial de conteúdo” com metas industriais que antecipam métodos típicos de campanha e levantam questionamentos sobre o financiamento de estruturas paralelas de difusão política.

Perfil de Gabriel Schmidt no Instagram (Reprodução)
A Convocação: “2.5 bilhões de views” e a meta de 1.000 clipadores
A prova inaugural da articulação demonstra o envolvimento direto do parlamentar na montagem da estrutura. Em uma publicação nos stories do Instagram, obtida pela reportagem, Gabriel Schmidt expõe a origem da ordem: “@nikolasferreiradm convocou e estou indo em direção a caminhada para Brasília”, marcando e deixando claro que o deputado estaria ciente da empreitada.

Reprodução Instagram. Chamado do Nikolas
Em seguida, o marqueteiro dispara o recrutamento: “Preciso de 1000 clipadores até amanhã para compor o time oficial de conteúdo para buscarmos no mínimo 2.5 bilhões de views nos próximos 4 dias”. Em outra postagem um print com o “gabinete de guerra” e a mensagem termina com um link direcionando os interessados para um grupo de WhatsApp, selando a evidência de que a difusão de vídeos não era um movimento espontâneo de apoiadores dispersos, mas a criação de um “time oficial” com objetivo de inflar artificialmente o alcance do parlamentar.
O que se seguiu foi a utilização do grupo “CLIPADORES NIKOLAS FERREIRA 🇧🇷”, criado originalmente em agosto de 2024. A Fórum teve acesso ao ambiente, que chegou a abrigar 362 membros durante a apuração. Do ponto de vista jurídico, o volume de participantes não é um detalhe. Em precedente recente, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) firmou o entendimento de que um grupo de WhatsApp com 438 membros não pode ser considerado um ambiente privado ou de comunicação restrita, dado o seu alto potencial de disseminação e o caráter eleitoral das interações. O grupo de Nikolas opera sob essa mesma lógica de escala.

Longe de ser um espaço de troca livre, o ambiente funcionava como uma linha de montagem corporativa. O material bruto, gravado na estrada, era despachado para os membros, que recebiam instruções estritas. Em uma série de vídeos enviados à tropa, Gabriel Schmidt deixa claro o nível de controle, onde a espontaneidade é substituída pela aprovação prévia centralizada:
“A gente vai mandar os arquivos aqui, vocês vão editar esses documentos, vocês vão mandar nesse grupo e nesse grupo tem três pessoas que estão responsáveis pela aprovação do material, tá bom? Ou seja, basicamente é assim que vai funcionar”, instrui o coordenador.
Em outro momento, ele reforça a exigência de dedicação e a ordem para colonizar as redes com novas contas dedicadas à marcha:
“A gente tá mandando lá em alta qualidade para você produzir conteúdo, mas eu não quero pessoas aproveitadoras lá, eu quero pessoas que de fato vão fazer o movimento crescer, vão criar páginas com o nome do movimento e com as instruções que eu tô direcionando lá.”
A Matemática da Operação: 200 milhões de visualizações a cada 12 horas
O sucesso dessa tentativa de induzir os mecanismos de recomendação por meio de replicação coordenada foi documentado e celebrado pelos próprios organizadores. Em uma postagem obtida pela reportagem, a coordenação exibe em números que o objetivo de inundar as redes foi alcançado. O balanço descreve a eficiência da operação: “+250 clipadores ativos com média de 500 mil views de 12 em 12 horas”. O resultado prático foi a marca de 250 milhões de visualizações em apenas um dia e meio, com a projeção de dobrar a aposta para o dia seguinte: “Só amanhã serão mais de 500 milhões de views, somente com páginas de corte”.

Reprodução Instagram
A velocidade do tráfego foi corroborada em vídeo pelo próprio Gabriel Schmidt. Em uma gravação feita do celular após mais um dia de caminhada, o marqueteiro atualiza o grupo: “A gente tá literalmente fazendo história, turma. Mais de 200 milhões de visualizações a cada 12 horas agora, atualização”.
Os Operadores da Engrenagem: A sombra de Marçal e a máquina pública
A anatomia da coordenação revela que a estrutura que impulsionou Nikolas Ferreira herda operadores e se conecta ao mesmo ecossistema de campanhas recentes investigadas por suspeitas de financiamento ilícito. O cruzamento de dados realizado pela reportagem identificou os administradores com o poder de “aprovar” o conteúdo da marcha.
O nome mais sensível na operação é o de Jefferson Rodrigo Zantut Kerber. Ele esteve diretamente envolvido no esquema de pagamentos paralelos a clipadores de Pablo Marçal nas eleições municipais de São Paulo. Foi apontado como um dos responsáveis por remunerar usuários pela viralização de vídeos, prática que contradisse a versão oficial da campanha do empresário e embasou investigações de abuso de poder econômico. A presença do mesmo operador no comando do fluxo de cortes de Nikolas Ferreira levanta questionamentos técnicos sobre a origem do financiamento dessa nova estrutura.
Outro administrador de destaque é Kawan Menezes Ponte Miranda, que ganhou notoriedade nacional após ser denunciado pelo Ministério Público do Ceará. Na condição de assessor parlamentar, ele instalou uma placa com a imagem de um veado em uma faixa de pedestres colorida em Fortaleza, em um ato classificado como homofóbico.
A investigação também encontrou indícios de uso da máquina pública no suporte à operação privada. Entre os integrantes do fluxo de cortes, identificou-se o contato oficial de WhatsApp da equipe da deputada estadual Débora Menezes (PL-AM), evidenciando o cruzamento entre gabinetes institucionais e a estrutura de engajamento.
O Modus Operandi da Extrema-Direita e o Alerta do TSE
A mobilização deste grupo de clipadores ilustra uma tática contínua da extrema-direita para dominar as redes por meio da guerra assimétrica de vídeos curtos. Como a reportagem já havia revelado no caso do “campeonato de cortes” promovido por aliados do governador Tarcísio de Freitas, o método consiste em estimular a viralização artificial para sobrepor pautas e “esquentar” o algoritmo com o nome do político muito antes do início do período eleitoral.
A operação descrita pela reportagem dialoga diretamente com alertas recentes da presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministra Cármen Lúcia, sobre os efeitos da desinformação e da manipulação tecnológica sobre a vontade livre e consciente do eleitor. A corte tem endurecido o entendimento sobre o impulsionamento irregular e estruturas que simulam organicidade para desequilibrar o jogo político.
O Risco Jurídico: Abuso de Poder e Caixa Dois
Do ponto de vista legal, Milton César Tomba da Rocha, advogado eleitoral e membro da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político (Abradep) e do Iprade, pontua que a análise exige separar a militância estritamente voluntária da estrutura financiada.
O especialista esclarece que, na pré-campanha, o que a lei pune de forma expressa é o pedido explícito de voto, embora a jurisprudência mais recente do TSE já identifique infração no uso de expressões com “semântica assemelhada”. Se a atividade dos clipadores for comprovadamente orgânica e sem recebimento de vantagens, tende a ser abrigada pela liberdade de expressão.
O risco de cassação e inelegibilidade surge na possibilidade de injeção de recursos não declarados. “Onde temos caixa dois, é possível o abuso de poder econômico e de meio de comunicação, que pode gerar a cassação do mandato do beneficiário e a inelegibilidade dele e dos demais envolvidos”, analisa o advogado.
O grande obstáculo para as autoridades, explica o jurista, é a materialidade da prova do rastro financeiro em um ambiente pulverizado. O repasse de valores neste modelo de negócio costuma driblar o sistema financeiro tradicional, valendo-se de criptomoedas, prestação de serviços cruzados em agências de publicidade ou a triangulação de pagamentos por meio de portais de fachada.
A marcha de Nikolas Ferreira encerrou seu trajeto pelo asfalto em fevereiro, mas a verdadeira operação logística continua rodando nos servidores das grandes plataformas. Com um núcleo de operadores egressos de campanhas judicializadas ditando as regras de triagem e distribuição, o “Acorda Brasil” revela-se como uma vitrine metodológica de como se constrói, fora do calendário oficial, uma máquina paralela de propaganda digital.
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