Multidão tomou as ruas da capital húngara para comemorar a derrota de Viktor Orbán, extremista de direita que deixará o poder na Hungria após 16 anos
e BERLIM | Budapeste viveu uma noite histórica. Após a confirmação da derrota do primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, nas eleições legislativas deste domingo (12), dezenas de milhares de pessoas tomaram as ruas da capital húngara em uma celebração que atravessou a madrugada e simbolizou o fim de um ciclo político de 16 anos marcado pelo nacionalismo e pelo avanço da extrema direita.
Ao longo das margens do rio Danúbio, em pontes icônicas e nas principais avenidas da cidade, multidões dançavam, cantavam e agitavam bandeiras da Hungria e da União Europeia. Carros buzinavam sem parar, bares transbordavam e o metrô virou palco de coro coletivo: “acabou”.
Vídeos que circulam nas redes sociais mostram cenas emblemáticas da noite — entre elas, grupos entoando o clássico antifascista “Bella Ciao”, transformado em trilha sonora espontânea da vitória oposicionista. Em outros registros, jovens pulam e se abraçam gritando que “finalmente acabou”, enquanto fogos de artifício iluminam o céu da capital.
A festa também se concentrou nas proximidades do Parlamento e da famosa Ponte das Correntes, iluminada com as cores nacionais. Muitos brindavam com taças improvisadas de champanhe, em um clima descrito por participantes como “inacreditável” após mais de uma década sob o comando de Orbán.
Veja vídeos:
Vitória histórica e discurso de “libertação”
O resultado das urnas confirmou uma virada contundente. O conservador pró-europeu Péter Magyar, líder do partido Tisza, conquistou uma supermaioria no Parlamento, com cerca de 54% dos votos e 138 das 199 cadeiras.
Diante de apoiadores em êxtase, Magyar declarou:
“Nós libertamos a Hungria. Recuperamos nossa pátria.”
O discurso foi acompanhado por uma multidão que ocupou as margens do Danúbio, em uma cena que misturava celebração política e catarse coletiva. O novo líder prometeu reconstruir instituições, fortalecer serviços públicos como saúde e educação e reposicionar o país no centro da União Europeia.

Peter Magyar discursa em Budapeste após derrotar Orbán nas eleições da Hungria (Foto: Ferenc ISZA / AFP)
Orbán, por sua vez, reconheceu a derrota, classificando o resultado como “doloroso, mas inequívoco”.
Jovens e alta participação selam mudança
A eleição registrou participação recorde, próxima de 80%, impulsionada especialmente por jovens e eleitores de cidades médias. Pesquisas indicavam que o partido de Orbán tinha apoio muito reduzido entre eleitores mais jovens — um fator decisivo para o desfecho.
Nas ruas, esse perfil era evidente: grupos de jovens lideravam os cantos, organizavam celebrações improvisadas e compartilhavam mensagens de esperança por uma “nova direção” para o país.
Golpe na extrema direita global
A derrota de Orbán é vista como um duro revés para movimentos nacionalistas e de extrema direita ao redor do mundo.
Aliado de figuras como Donald Trump e próximo de Vladimir Putin, Orbán havia transformado a Hungria em referência para líderes que defendem políticas autoritárias, controle da mídia e confronto com instituições multilaterais.
O resultado das eleições húngaras enfraquece esse campo político internacionalmente, ao mostrar que mesmo sistemas moldados para favorecer líderes no poder podem ser revertidos por mobilização popular.
Europa celebra: “Hungria escolheu a democracia”
A repercussão internacional foi imediata — e majoritariamente positiva entre líderes europeus.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que “a Hungria escolheu a Europa”. Já o presidente francês Emmanuel Macron destacou o compromisso do povo húngaro com os valores democráticos.
O chanceler alemão Friedrich Merz classificou o resultado como uma “derrota pesada do populismo de direita”, enquanto o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez declarou que “a Europa venceu”.
Até aliados ideológicos de Orbán reconheceram a vitória de Magyar, ainda que com ressalvas, evidenciando o peso simbólico da mudança.
Fim de um ciclo — e início de outro
Durante anos, Orbán foi visto como um obstáculo dentro da União Europeia, frequentemente bloqueando decisões estratégicas e se aproximando de regimes autoritários. Sua saída abre caminho para uma Hungria mais alinhada ao bloco europeu — e pode alterar o equilíbrio político dentro da própria Europa.
Nas ruas de Budapeste, porém, o tom era menos geopolítico e mais emocional.
Entre abraços, lágrimas e músicas entoadas em coro, uma frase se repetia:
“Esperamos por isso por 16 anos.”
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