Milei financiou operação de fake news e ataques contra governos de esquerda da América Latina, diz site

Áudios vazados revelam articulação com apoio dos Estados Unidos e indicam que Milei teria financiado uma rede de desinformação para atacar líderes de esquerda como Gustavo Petro e Claudia Sheinbaum

ma investigação jornalística internacional revelou indícios de que o presidente da Argentina, Javier Milei, teria financiado uma operação de desinformação e ataques digitais contra governos de esquerda na América Latina. As denúncias foram publicadas originalmente pelo portal espanhol Diario Red, em parceria com o consórcio Hondurasgate, e repercutidas por veículos como o jornal argentino Página/12.

De acordo com a apuração, baseada em mais de 300 áudios obtidos de aplicativos como WhatsApp, Signal e Telegram, Milei teria dado 350 mil dólares (R$ 1,7 milhão) para a criação de uma estrutura de comunicação sediada nos Estados Unidos. O objetivo seria operar como uma espécie de “célula de jornalismo digital” voltada à disseminação de conteúdos contra lideranças progressistas da região.

Segundo o Diario Red, o principal articulador do esquema seria o ex-presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández (JOH), condenado por narcotráfico nos Estados Unidos e posteriormente indultado pelo então presidente Donald Trump. Nas gravações, Hernández afirma ter dialogado diretamente com Milei sobre o financiamento da operação.

“Poderíamos falar com o Milei, e ele está colaborando com 350 mil dólares”, diz JOH em um dos áudios, segundo a investigação. Em outro trecho, ele detalha o plano de montar uma “célula” nos Estados Unidos para evitar rastreamento jurídico nos países latino-americanos.

A iniciativa teria como alvos principais o presidente da Colômbia, Gustavo Petro; a presidenta do México, Claudia Sheinbaum; e a família Zelaya, em Honduras. O objetivo declarado, segundo os áudios, seria “atacar e extirpar o câncer da esquerda” na região.

Ouça um dos áudios vazados: 

Influência dos EUA e interesses estratégicos

A investigação aponta ainda para uma articulação mais ampla envolvendo setores políticos dos Estados Unidos. Hernández sugere, nas conversas, que a operação contaria com apoio de aliados republicanos e estaria alinhada a interesses estratégicos norte-americanos, incluindo a instalação de bases militares e o favorecimento de empresas de inteligência artificial.

A escolha dos Estados Unidos como base da operação não seria casual. De acordo com os jornalistas responsáveis pela apuração, o território norte-americano ofereceria maior proteção jurídica e dificultaria investigações por parte dos países afetados.

Repercussão e credibilidade das denúncias

A diretora do Diario Red América Latina, Daniela Pastrana, afirmou ao Página/12 que os áudios passaram por processos rigorosos de verificação. Segundo ela, trata-se de uma nova forma de intervenção política na região, comparável ao antigo Plano Condor — desta vez no ambiente digital.

“A diferença é que agora estamos vendo a operação acontecer em tempo real”, declarou.

Apesar disso, Juan Orlando Hernández negou a autenticidade das gravações. Ainda assim, os responsáveis pela investigação sustentam que os fatos políticos posteriores às conversas corroboram a cronologia apresentada.

As revelações também reacendem o debate sobre ingerência estrangeira na América Latina. O Diario Red destaca que ações semelhantes teriam ocorrido em processos eleitorais recentes, incluindo pressões diretas dos Estados Unidos em países como Honduras e Argentina.

No caso argentino, a denúncia ganha contornos ainda mais delicados diante de críticas recorrentes ao governo Milei por ataques à imprensa, restrições ao trabalho jornalístico e disseminação de desinformação — pontos também abordados na reportagem original..

Até o momento, o governo argentino não apresentou esclarecimentos sobre as acusações.

*Com informações do Diario Red e Pagina 12