Ciro Nogueira, ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro, é alvo de operação da PF por fraudes no caso Master

Polícia Federal cumpre mandado de busca e apreensão em endereço de Ciro Nogueira em Brasília em nova fase da Operação Compliance Zero, que investiga organização criminosa comandada por Daniel Vorcaro, do banco Master.

“Amigo da vida” de Daniel Vorcaro, o presidente nacional do PP e ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro (PL), Ciro Nogueira (PP-PI) é o principal alvo da nova fase da Operação Compliance Zero, que investiga suspeitas de fraudes financeiras ligadas ao Banco Master. Segundo a investigação, Ciro Nogueira teria recebido R$ 18 milhões em propinas de Vorcaro.

“Policiais federais cumprem dez mandados de busca e apreensão e um mandado de prisão temporária, expedidos pelo Supremo Tribunal Federal, nos estados do Piauí, de São Paulo, de Minas Gerais e no Distrito Federal. A decisão judicial autorizou, ainda, o bloqueio de bens, de direitos e de valores no valor de R$ 18,85 milhões”, diz nota divulgada pela PF.

A ação foi autorizada pelo ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), que apontou em sua decisão “a identificação da suposta conduta do senador em favor do banqueiro, em troca do recebimento de vantagens econômicas indevidas”.

Agentes federais cumprem mandados de busca e apreensão no endereço dele em Brasília. A ação tem como objetivo aprofundar investigações sobre um esquema de corrupção, de lavagem de dinheiro, de organização criminosa e crimes contra o Sistema Financeiro Nacional.

Um dos presos na operação é Felipe Cançado Vorcaro, primo de Daniel Vorcaro.

(Reportagem em atualização)

“Amigo da vida”

Mensagens encontradas pela Polícia Federal (PF) no celular do banqueiro Daniel Vorcaro indicam proximidade entre o empresário e o senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro e uma das principais lideranças do centrão no Congresso.

Nos diálogos, Vorcaro se refere ao parlamentar como “grande amigo de vida”, comemora uma emenda apresentada por ele que beneficiaria o Banco Master e chega a autorizar um pagamento a uma pessoa identificada apenas como “Ciro”.

As mensagens mostram que Vorcaro mantinha conversas frequentes com o senador, que é presidente nacional do PP. Segundo investigadores, os diálogos tratam de assuntos políticos, amenidades e organização de encontros presenciais. Uma das mensagens, porém, aponta suposto pagamento ordenado por Vorcaro a Ciro. Até o momento, não há inquérito formal aberto contra o senador no âmbito da investigação.

Emenda que beneficiaria o Master

Em uma troca de mensagens com sua companheira, a blogueira Martha Graeff, Vorcaro apresenta o senador como alguém muito próximo. “Ciro nogueira. É um senador. Muito amigo meu. Quero te apresentar. Um dos meus grandes amigos de vida”, escreveu o banqueiro em maio de 2024.

Meses depois, ele voltou a citar o parlamentar ao comentar uma iniciativa legislativa apresentada por Nogueira. “Ciro soltou um projeto de lei agora que é uma bomba atômica [sic] mercado financeiro! Ajuda os bancos médios e diminui poder dos grandes! Esta [sic] todo mundo louco”, escreveu Vorcaro. Martha respondeu: “Wow amor. Louca pra saber de tudo ao vivo”.

A conversa ocorreu em 13 de agosto de 2024, data em que o senador apresentou uma emenda à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que trata da autonomia financeira do Banco Central. O texto sugeria elevar o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por CPF ou CNPJ.

O modelo de negócios do Banco Master estava fortemente baseado na emissão de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com garantia do FGC. Com a ampliação do teto de cobertura, os títulos emitidos pela instituição passariam a contar com proteção maior para investidores.

Por causa desse impacto potencial, a proposta ficou conhecida nos bastidores do mercado financeiro e do Congresso como “emenda Master”. A iniciativa acabou não avançando após resistência de entidades ligadas ao setor bancário e a PEC segue parada no Senado.

Autorização de pagamento

Além das mensagens sobre a emenda, a PF identificou indícios de um possível pagamento associado ao nome “Ciro”. Em maio de 2024, Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e apontado como seu operador financeiro, enviou ao banqueiro uma lista com solicitações de repasses.

“Preciso que me ordene as prioridades. […] 2. Pagamento pra Ciro”, escreveu Zettel. Na sequência, Vorcaro autorizou os pagamentos mencionados na lista.

Os investigadores ainda não tiveram acesso aos dados bancários relacionados à transação e, por isso, não confirmaram se o destinatário era o senador ou outra pessoa com o mesmo nome.

Outra conversa analisada pela investigação envolve o deputado federal Fausto Pinato (PP-SP). Na mensagem, o parlamentar sugere um encontro virtual com o senador. “Oi, amigo, precisamos fazer a vídeo conferência [sic] eu vc e Ciro”, escreveu Pinato. Vorcaro respondeu: “Opa. Vamos. Só me chamar”.

As mensagens também mostram que o banqueiro demonstrava interesse em participar de eventos da família do senador. Em diálogo com Martha Graeff, ele menciona o casamento de Duda Nogueira, filha de Ciro, realizado em agosto de 2024, e afirma que gostaria que a companheira o acompanhasse na cerimônia.

Procurado, Ciro Nogueira afirmou conhecer Vorcaro, mas negou proximidade e qualquer pagamento relacionado ao caso. “Inferir que se refere a mim, senador Ciro Nogueira, é definitivamente uma mentira fabricada na tentativa de manchar minha biografia”, declarou.

Em outro posicionamento enviado por sua assessoria, o senador disse que troca mensagens com muitas pessoas. “Ciro Nogueira volta a destacar que está tranquilo quanto às investigações da Polícia Federal nas denúncias que envolvem o empresário, uma vez que não mantém nem nunca manteve qualquer conduta inadequada relacionada ao caso em apuração.”

A defesa de Daniel Vorcaro não se manifestou. Investigadores continuam analisando os dados extraídos do celular do banqueiro para verificar se há indícios de crimes envolvendo agentes políticos no escândalo que atingiu o Banco Master.

Revista Forum