Traficante do CV relatou ao ex-assessor de TH Joias encontros e troca de favores com Gutemberg Fonseca; aliado de Flávio Bolsonaro nega
“Mérito que ganha quando eu resolvo algo”, disse o traficante do Comando Vermelho Índio do Lixão para Luiz Eduardo Cunha Gonçalves, o Dudu, assessor do ex-deputado TH Joias, em junho de 2025. Quem ganhou o mérito, segundo a conversa, foi o ex-secretário de Defesa do Consumidor do governo do Rio de Janeiro Gutemberg Fonseca.
Trocas de mensagens interceptadas pela Polícia Federal e obtidas pela coluna mostram que o traficante Índio do Lixão, entre maio e agosto de 2025, falou ao menos cinco vezes sobre encontros ou troca de favores com Gutemberg Fonseca. O político foi indicado por Flávio Bolsonaro para a Secretaria de Defesa do Consumidor em 2023 e ficou até abril de 2026. Ele será candidato pelo PL à Câmara dos Deputados.
Em 13 de maio de 2025, segundo o relatório da Polícia Federal, ocorreu a primeira conversa sobre um encontro com Gutemberg Fonseca, que é chamado de “Guto” por Índio e Dudu. O traficante do CV pergunta ao ex-assessor do TH Joias: “cadê você? assim eu vou ficar fraco”, indicando insatisfação com a ausência de Dudu. “Tá geral aqui, Guto e todos. Cadê vocês?”, continuou. Na época, Índio do Lixão não tinha um mandado de prisão contra ele.
No dia seguinte, Índio disse a Dudu que queria contar o que “o doutor” falou. Os dois ficaram 39 minutos em uma ligação e, ao terminar, o traficante do CV pediu para Dudu perguntar o que Gutemberg Fonseca achou da “atitude” dele, que teria resolvido um problema de maneira rápida.
Gabriel Dias de Oliveira, conhecido como Índio do Lixão, é apontado pela Polícia Federal como um dos chefes do Comando Vermelho. Ele é investigado por tráfico internacional de armas e, segundo as investigações, contava com uma espécie de batalhão formado por policiais militares que atuavam em sua segurança pessoal e no apoio logístico da organização criminosa. A PF também afirmou no relatório que existia uma “articulação política” em favor dos interesses do traficante.
O ex-secretário negou à coluna qualquer encontro com o Índio do Lixão. (Leia a íntegra do posicionamento ao final da reportagem).
Em junho de 2025, no mês seguinte ao encontro, Índio do Lixão encaminhou a Dudu um vídeo do Instagram de Gutemberg Fonseca que mostra uma reunião da Secretaria de Defesa do Consumidor, Procon e Enel. Junto com o conteúdo, o traficante escreveu: “Mérito que ganha quando eu resolvo algo. Aí, reunião Enel, Procon e Sedcon”. O assessor de TH Joias então responde: “Mandei pro Menezes. Falei que era legal ter levado você. Ele ainda não respondeu”.
“Menezes” é, segundo a Polícia Federal, Marcos José Menezes, ex-servidor na Prefeitura do Rio de Janeiro entre 2020 e 2021. Ele também foi do Procon estadual entre 2010 e 2020. A autarquia é subordinada à Secretaria de Defesa do Consumidor, que era chefiada por Gutemberg Fonseca até abril. O servidor é citado em diversas mensagens entre Dudu e Índio do Lixão, mas a principal delas ocorreu em julho de 2025, que tratou sobre uma nomeação a pedido do traficante.
“Pergunta da nomeação. Se ele não for, eu vou em outro caminho já certo”, disse Índio a Dudu, que respondeu: “Eu aviso ele” e, uma hora depois, pediu o número de identidade do traficante com a seguinte mensagem: “vamos pegar logo essa nomeação”.
Em agosto daquele mesmo ano, Índio do Lixão volta a falar sobre Gutemberg Fonseca com Dudu. No dia 25, ele pergunta ao assessor de TH Joias o que ele achava de o secretário de Defesa do Consumidor destravar alguma questão que Marcos José Menezes não estava conseguindo resolver — possivelmente a nomeação.
“Irmão, caso o Marcos não resolver, o que você acha Guto chamar o Júnior e dar o papo? [sic]”, disse o traficante. “Posso falar com ele. Já fala com Marcos agora. Senão eu já ligo nele [Gutemberg Fonseca]”, respondeu Dudu.
Dois dias depois, o diálogo entre o assessor de TH Joias e Índio aponta que Marcos José Menezes teria marcado uma reunião, que teria a presença de Gutemberg Fonseca, com o traficante. O encontro, que seria na sede do Procon, teria sido intermediado por Dudu, que foi quem enviou o endereço a Índio.
A Polícia Federal afirmou que não é possível saber se a reunião aconteceu de fato, o motivo teria sido a demora de Menezes em atender às ligações de Dudu.
Mensagens com Alessandro Pitombeira Carracena
Índio do Lixão também tinha acesso direto ao advogado Alessandro Pitombeira Carracena, ex-secretário estadual de Esportes e Lazer e ex-subsecretário estadual de Defesa do Consumidor durante a gestão de Gutemberg Fonseca. Carracena, segundo as investigações da Polícia Federal, recebia dinheiro para atender pedidos de lideranças do Comando Vermelho. Ele está preso desde setembro de 2025.
Mesmo tendo sido exonerado em janeiro de 2025, Carracena mantinha contato e continuava recebendo dinheiro de Índio do Lixão. Em maio de 2025, após a reunião que foi relatada no início da reportagem, o traficante disse ao ex-subsecretário que tinha se encontrado com Gutemberg Fonseca e que poderia ajudar ele na política.
“[…] Inclusive, hoje eu fui numa reunião hoje, e o amigo estava lá na reunião, o secretário onde o senhor trabalha. Aí conversei um pouco com ele lá também referente à política, que poderia ajudar ele. Aí ele, pô, tá doido. O cara mó legal. Falamos do senhor. Ele me perguntou se tinha alguma referência, daí eu falei ‘pô, Carracena me conhece legal e tal’ e ele falou ‘pô, é mesmo? Você tá com a melhor pessoa do mundo, cara, excelente advogado, meu irmão’ [sic]”.
Em junho de 2025, Índio encaminha para Carracena o mesmo vídeo encaminhado a Dudu, sobre a reunião política de Gutemberg Fonseca com a Enel e o Procon.
“Ficou forte ele com Enel né”, disse ao advogado, que respondeu: “Muito é por causa de você”.
Em seguida, o traficante desabafou: “Não vou mais incomodar ele não doutor, não posso ficar forçando ele a me ajudar se o coração dele não quer me ajudar”, Carracena respondeu: “lutando por isso” e Índio, então, encerrou: “se ele quisesse, já teria feito. Ainda mais depois do que eu fiz”.
A PF aponta que “aparentemente” Gutemberg Fonseca não teria correspondido às expectativas de Índio, mesmo após receber algum tipo de auxílio.
À coluna, Gutemberg Fonseca negou qualquer tipo de relação e encontro com Índio do Lixão. O ex-secretário de Defesa do Consumidor disse que, mesmo que o encontro tenha acontecido, “porque encontra muitas pessoas”, o traficante não era alvo de mandado de prisão na época.
O que diz Gutemberg Fonseca, ex-secretário de Defesa do Consumidor do Rio de Janeiro
Sobre a relação com Marcos José Menezes, Gutemberg Fonseca disse que, após a saída dele da Prefeitura em 2021, ele nunca mais teve um cargo público. O ex-secretário de Defesa do Consumidor assumiu que continuou tendo relação com Menezes, como mostram as mensagens interceptadas pela PF.
“Ele foi meu coordenador de campanha em 2022, quando fui candidato a deputado federal e será um dos coordenadores neste ano”, afirmou.
Após alegar que não teve qualquer contato ou relação com Dudu ou Índio do Lixão, Gutemberg Fonseca foi questionado sobre o porquê os dois teriam mencionado o nome dele. O ex-secretário disse não entender o porquê.
“Sempre trabalhei para combater o crime organizado e pela segurança da minha família. Por que teria relações com essas pessoas? Não entendo porque eles mencionaram encontros comigo. Se tivesse alguma coisa, a Polícia Federal teria me indiciado. Na própria troca de mensagens, o traficante disse que eu não atendi aos pedidos dele”, pontuou.
metropoles



















