00020101021226830014br.gov.bcb.pix2561api.pagseguro.com/pix/v2/E9A06DD9-96CF-4408-97CD-CDA8AAA439405204799553039865802BR5918HS DO BRASIL LTDA.6009Sao Paulo62070503***6304359B

Enquanto a crise de liquidez do Banco Master avançava nos bastidores, o grupo de Daniel Vorcaro investia em patrocínios milionários no horário nobre da TV Globo para projetar uma imagem de solidez que não existia. Luciano Huck foi a principal peça dessa estratégia.

Will Bank, braço digital do Banco Master controlado por Daniel Vorcaro, preso pela Polícia Federal em novembro de 2025 por suspeita de fraudes financeiras bilionárias, utilizou o Domingão com Huck como vitrine de credibilidade nos meses que antecederam sua liquidação pelo Banco Central.

Os fatos não são novos, mas necessários de serem lembrados em meio aos ataques do apresentado ao Bolsa Família e aos beneficiários do programa que, segundo Huck, “criam atalhos pra ficar no programa de distribuição de renda, de proteção social, ad eternum”. A declaração, feita em encontro do grupo Esfera, criado por empresários para dar sustentação ao ex-governo Jair Bolsonaro, revela a seletividade hipócrita de Huck, que lucra humilhando pobres em quadros que prometem prêmios milionários em seu programa com dinheiro, muitas vezes, oriundos de grandes corruptores que atuam na Faria Lima e são blindados pela cobertura da mídia liberal.

Entre outubro e novembro de 2025, o Will Bank patrocinou o quadro “Willimpíadas” no programa dominical da TV Globo, distribuindo R$ 1 milhão em prêmios e mobilizando 200 participantes de 24 estados, enquanto o grupo de Daniel Vorcaro já acumulava sinais graves de comprometimento operacional. Mensagens obtidas nas investigações sobre o caso Master revelam que Vorcaro e Huck teriam se encontrado pessoalmente em outubro de 2024, período em que a crise de liquidez já era uma realidade interna da instituição.

A vitrine do colapso

Quatro domingos seguidos, em 12 e 26 de outubro e 9 e 23 de novembro de 2025, o Will Bank ocupou o centro do programa mais assistido da televisão brasileira. O quadro “Willimpíadas”, exibido no Domingão com Huck, reuniu 200 participantes em provas de lógica, agilidade e resistência, com um prêmio final de R$ 1 milhão em barras de ouro. A ação não se limitou a intervalos comerciais: a marca do banco foi integrada de forma orgânica ao programa, com Luciano Huck no centro da atração.

A megaestrutura da campanha revela a escala do investimento. Segundo material promocional do próprio Will Bank, a ação mobilizou pessoas de 99 cidades e 24 estados, combinando 120 clientes selecionados via aplicativo com 80 influenciadores digitais convidados. A cobertura nacional era parte calculada da estratégia: criar a percepção de um banco em expansão, com presença em todo o território brasileiro, ancorado pelo prestígio do apresentador mais popular do país.

O timing é o dado mais revelador. O patrocínio ocorreu enquanto o grupo Master já enfrentava uma crise de liquidez que se tornaria pública meses depois. Ao colocar o Will Bank no centro do horário nobre da Globo, Vorcaro apostava que a associação com Huck e com a maior emissora do país funcionaria como um escudo de credibilidade, uma “casca” de solidez para uma instituição que já apresentava rachaduras estruturais. O CEO do Will Bank, Felipe Felix, havia anunciado a parceria com Huck em abril do ano anterior afirmando que o apresentador traria “grande sinergia à marca”. Huck, por sua vez, declarou em material promocional: “O Will Bank é meu novo banco. Um parceiro que escolhi para estar ao meu lado nos próximos anos.”

Conexões de bastidores

A relação entre Huck e Vorcaro não se restringiu ao contrato publicitário. Em 28 de outubro de 2024, o banqueiro enviou uma mensagem à sua então namorada, Martha Graeff, informando que estava deixando o banco para um encontro pessoal. “To saindo banco e indo pra jantar com Luciano Huck, e vc”, escreveu Vorcaro, segundo mensagens obtidas nas investigações sobre o caso Master e reportadas pela Fórum e pelo Intercept. A data é relevante: o Banco Master já apresentava sinais de problemas de liquidez naquele período.

O encontro indica que a proximidade entre o apresentador e o banqueiro transcendia a relação cliente-patrocinador. Segundo fontes do mercado financeiro ouvidas pela imprensa, Huck chegou a avaliar a compra do próprio Will Bank como investidor, em conjunto com um grupo liderado pela gestora EB Capital, de Eduardo Melzer. A negociação, segundo o colunista Lauro Jardim, do O Globo, chegou a uma fase avançada de auditoria antes de ser abandonada. A EB Capital teria concluído que o processo de reestruturação do ativo levaria tempo demais e adicionaria risco excessivo à carteira. Procurado à época, Huck afirmou por meio de sua assessoria que não comentaria o assunto por não haver “nada concreto”.

O conjunto de fatos, patrocínio milionário, jantar documentado em mensagens e avaliação de compra, aponta para um trânsito que ia além dos corredores da publicidade. Huck circulava em ambientes restritos do grupo Master em um momento em que a instituição buscava desesperadamente soluções para sua crise. A natureza exata das conversas nesses encontros permanece sem confirmação pública, e a assessoria do apresentador não se pronunciou sobre o teor do jantar mencionado por Vorcaro.

A derrocada financeira

O colapso do grupo Master não foi um evento súbito. Em 21 de fevereiro de 2026, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da Will Financeira S.A., empresa ligada ao mesmo grupo econômico controlado por Vorcaro. Segundo o BC, a medida foi motivada pelo vínculo direto de interesse com o Banco Master e pelo comprometimento operacional da Will Financeira, que havia deixado de cumprir a grade de pagamentos do arranjo Mastercard. A falha resultou no bloqueio da participação da instituição no sistema de pagamentos, tornando inviável sua continuidade operacional.

Antes da liquidação da Will Financeira, o Banco Master já havia recorrido a uma linha emergencial de R$ 4,5 bilhões do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para honrar depósitos de clientes. A linha venceu em 1º de outubro, mas as tratativas para reduzir o passivo do grupo continuavam, centradas principalmente em uma solução para o Will Bank. O Banco Central tentou preservar as operações submetendo o Master Múltiplo S/A ao Regime Especial de Administração Temporária (RAET), mas a estratégia não teve sucesso. A liquidação do Banco Master foi decretada em novembro de 2025, e Vorcaro foi preso pela Polícia Federal no mesmo período, investigado por suspeita de fraudes financeiras bilionárias, lavagem de dinheiro, corrupção e tentativa de obstrução das investigações.

O dado que conecta a derrocada financeira à estratégia de marketing é preciso: as “Willimpíadas” foram ao ar entre outubro e novembro de 2025, exatamente no período em que o grupo desmoronava. A instituição que distribuía R$ 1 milhão em prêmios no horário nobre da Globo era a mesma que, semanas depois, seria liquidada pelo regulador.

A defesa de Flávio Bolsonaro

O caso Huck-Vorcaro ganhou uma dimensão política inesperada quando o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) o utilizou como argumento de defesa em entrevista à GloboNews. Pressionado a responder sobre o financiamento do filme Dark Horse, produção sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro, o senador afirmou que “um banco ligado a Vorcaro botou R$ 160 milhões” no programa de Huck. O valor não tem confirmação documental pública até o momento da publicação desta reportagem.

A manobra de Flávio Bolsonaro foi transparente: ao equiparar o patrocínio publicitário do Will Bank ao Domingão com o financiamento do filme bolsonarista, o senador tentava diluir a gravidade das acusações que pesam sobre o projeto cinematográfico. “É dinheiro sujo? Vocês sabiam da origem desse dinheiro?”, questionou Flávio aos jornalistas da GloboNews, antes de acrescentar: “Eu acho que não, acho que vocês agiram de boa-fé. Como eu também fui buscar de boa-fé.” A lógica do argumento era simples: se a Globo aceitou dinheiro de Vorcaro sem questionar a origem, não caberia cobrar o mesmo critério do campo bolsonarista.

“É dinheiro sujo? Vocês sabiam da origem desse dinheiro? Eu acho que não, acho que vocês agiram de boa-fé. Como eu também fui buscar de boa-fé.” — Flávio Bolsonaro, em entrevista à GloboNews

O problema com a equiparação é estrutural. Patrocínio publicitário e financiamento de produção cinematográfica com vínculos políticos são categorias distintas, com implicações legais e éticas diferentes. Mas o movimento do senador cumpriu seu objetivo imediato: inserir Huck e a Globo na narrativa do caso Master, deslocando o foco das investigações sobre o Dark Horse, que, segundo o Intercept, recebeu ao menos US$ 10,6 milhões de Vorcaro, com compromisso total de US$ 24 milhões.

Implicações éticas e reputacionais

O caso Will Bank expõe uma vulnerabilidade estrutural do mercado de patrocínios com celebridades no setor financeiro. O influenciador empresta prestígio à marca, e a marca devolve legitimidade ao influenciador. Quando a instituição colapsa, essa via de mão dupla se torna um problema para ambos os lados.

O que torna o caso particularmente relevante é a inversão da lógica tradicional de risco. Historicamente, empresas se preocupam com crises de imagem dos influenciadores que contratam. Aqui, foi a marca que colapsou, deixando Huck, Vinicius Junior, Maisa, Whindersson Nunes e outros artistas com a imagem associada a uma instituição liquidada pelo regulador. A defesa mais comum nesses casos, a de que crises financeiras são imprevisíveis, tem algum amparo factual, mas o histórico de sinais de risco do grupo Master, incluindo a linha emergencial de R$ 4,5 bilhões do FGC e os problemas de liquidez documentados desde 2024, indica que um processo de due diligence mais rigoroso poderia ter mapeado parte desse risco antes da assinatura dos contratos.

A pergunta que o caso deixa sem resposta definitiva é sobre o grau de responsabilidade de figuras públicas na promoção de produtos financeiros para audiências massivas. Huck não era apenas um rosto em um anúncio: era, segundo suas próprias palavras em material promocional, alguém que havia “escolhido” o Will Bank como seu banco. Essa linguagem de endosso pessoal, comum no marketing de influência, carrega um peso diferente quando a instituição promovida entra em colapso e seus clientes perdem acesso a recursos.