O Brasil pode registrar cerca de 822 mil casos de estupro por ano, embora apenas uma pequena parcela das vítimas procure as autoridades. Os dados constam no Atlas da Violência 2026, divulgado nesta terça-feira, 26 de maio. O estudo foi elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
O documento aponta que, em 2024, foram oficialmente registrados 87.545 casos de estupro e estupro de vulnerável no país. No entanto, os pesquisadores alertam que os números reais são muito superiores devido à forte subnotificação desse tipo de crime. Pelos cálculos da pesquisa, estima-se que ocorram 94 agressões sexuais por hora no país — quase uma centena.
Segundo o relatório, apenas 8,5% das vítimas de violência sexual procuram a polícia e somente 4,2% dos episódios chegam aos sistemas oficiais de saúde. De acordo com o estudo, a falta de registros dificulta a compreensão da dimensão exata do problema e compromete a formulação de políticas públicas eficazes.
O perfil das vítimas e o “iceberg” da violência
Os autores do estudo destacam que a maioria das vítimas notificadas no sistema de saúde é composta por meninas, que representam 86,9% do total dos casos registrados. Na faixa de 10 a 14 anos, o estupro responde por 45,5% de todas as violências sexuais sofridas. Para os pesquisadores, os dados oficiais representam somente “a ponta de um iceberg” da violência contra o corpo feminino no país.
Ainda sobre a violência sexual de gênero, os órgãos alertam para o “recrudescimento da cultura red pill [machismo misógino]” no ambiente virtual, que tem influenciado negativamente o comportamento de jovens e desvalorizado as meninas brasileiras.
“Essa ideologia difunde a falsa ideia de que os homens estariam sendo prejudicados pelo feminismo e de que as mulheres seriam manipuladoras, interesseiras ou naturalmente inferiores”, descreve o relatório.
Esse comportamento misógino, difundido na chamada “manosfera” (comunidades online focadas em discursos de masculinidade tóxica), naturaliza a agressividade masculina e impulsiona formas de sociabilidade distorcidas que reforçam comportamentos abusivos. O estudo sublinha que o combate a essa realidade exige investimentos urgentes em letramento digital crítico, educação para a igualdade de gênero e a prevenção da misoginia desde a infância e a adolescência.
Feminicídios e “homicídios ocultos”
O Atlas da Violência 2026 inclui ainda dados sobre a violência letal contra a mulher no Brasil. Em 2024, 3.642 mulheres foram assassinadas no país, o que representa uma taxa de 3,4 mortes para cada 100 mil mulheres.
Esse número indica uma queda de 6,7% em relação a 2023 e uma redução acumulada de 27,7% desde 2014, segundo a série histórica do estudo.
Apesar do recuo, o volume absoluto de casos permanece alarmante e evidencia a persistência da violência de gênero no país: entre 2014 e 2024, 46.336 mulheres foram assassinadas no Brasil. O documento revela também que, em 2024, 35,2% dos casos de feminicídio ocorreram dentro das próprias residências das vítimas.
Os pesquisadores também calcularam os chamados “homicídios ocultos”. Enquanto a taxa de mortalidade de mulheres registrada oficialmente em 2024 foi de 3,4 por 100 mil, a taxa real estimada sobe para 4,4.
A expressão “homicídios ocultos” é usada para classificar óbitos por agressão que acabaram registrados indevidamente como Mortes Violentas por Causa Indeterminada (MVCI). Para chegar à taxa corrigida de 4,4 por 100 mil mulheres, os pesquisadores aplicaram técnicas de aprendizado de máquina (machine learning) para identificar as agressões intencionais que foram catalogadas erroneamente pelos sistemas de saúde estaduais.
Redação com agências




