A situação ocorreu em uma escola municipal em São José dos Campos, em São Paulo; três alunos foram suspensos
“Eu sou Michele Ramos, atualmente professora na rede municipal de ensino de São José dos Campos, São Paulo. Me formei em Biologia em 2010 e, a princípio, não fui para a área da educação. Tentei, mas não consegui seguir a carreira acadêmica. Depois, senti um chamado, uma vontade de trabalhar com educação e fazer alguma transformação na sociedade. Fiz a licenciatura, prestei concurso, fui chamada e tinha uma expectativa boa. Mas nada tinha me preparado para o ambiente da sala de aula. A gente estuda um monte de coisas, mas nada te prepara para o turbilhão que é pegar turmas de sexto e nono anos.
Comecei a dar aula em 2020, no ano da pandemia. Fui pegando o jeito aos trancos e barrancos enquanto enfrentava a dura realidade dessas crianças. São elas as situações externas que os alunos passam, a ausência de família e as dificuldades de aprendizado. Um monte de coisas que eu não imaginei que fosse me impactar tanto.
Mesmo assim, dentro da sala, eu tento deixar um clima leve. Gosto de fazer experiências práticas, mas, às vezes, fico receosa e acabo desistindo, porque geralmente são os dias em que eles ficam mais agitados. As crianças se distraem com muita facilidade. O negócio deles é a dopamina o tempo inteiro. Se você pede uma leitura um pouco mais longa, parece que pediu algo absurdo. Eles não têm paciência com o próprio aprendizado, querem escolher o que fazer, não aceitam o método tradicional, e essa revolta acaba caindo sobre mim.
Antes desse episódio mais grave, eu já tinha passado por momentos de estresse e crises de ansiedade devido à falta de comprometimento e à muita bagunça. Sofri desrespeito e xingamentos de alguns estudantes e tive que ouvir coisas de familiares que eu não gostaria. Cheguei a sentir que não estava dando conta. Isso me levou a um estado de medo em que eu tive que me afastar por três ou quatro dias.
O ponto de virada foi em 2022, só dois anos depois de iniciar na profissão. Comecei a sentir pânico ao sair de casa. Já estava ficando sem dormir, ruminando situações de forma excessiva. Não era só um dia difícil; meu cérebro estava sendo constantemente bombardeado. Percebi que estava em um estado de ansiedade muito alto e comecei a tomar medicações. Hoje, estou à base de remédios. Tentei ficar sem, mas no momento só conseguia dar aula medicada.




