Flávio usou picanha, cortes para churrasco, Nutella e até sandálias para atacar Lula; Dimas Gadelha refez a conta com itens básicos e mostrou que o salário mínimo compra hoje quase duas cestas a mais
deputado federal Dimas Gadelha (PT-RJ) foi a um supermercado no Rio de Janeiro para responder ao vídeo em que o senador e pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirma que “o poder de compra do brasileiro acabou” durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Em vez de comparar carrinhos diferentes ou recorrer apenas à memória sobre os preços praticados durante o governo de Jair Bolsonaro, Gadelha recuperou na internet um encarte do Supermercado Guanabara válido entre os dias 12 e 15 de julho de 2022.
O carrinho de R$ 908 de Flávio Bolsonaro
Flávio publicou no domingo (19) um vídeo em que aparece fazendo compras em um supermercado da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Ao passar pelo caixa, afirmou ter desembolsado R$ 908,40 e atribuiu o valor ao governo Lula.
“Botei aqui no carrinho algumas coisas que, certamente, todo brasileiro precisa ter em casa. Pode variar uma marca ou outra, mas queria mostrar que não tem nem meio carrinho aqui. É uma compra que não vai durar muito para uma família de 3 a 4 pessoas”, declarou.
Segundo o senador, R$ 217,20 do valor total corresponderiam a tributos. “Realmente o poder de compra do brasileiro acabou”, concluiu.
O carrinho apresentado como exemplo do consumo cotidiano, entretanto, não era formado apenas por itens básicos. A compra incluía uma peça de picanha de R$ 97,51, coração de alcatra de R$ 54,78, contrafilé de R$ 90,45, um pote de 700 gramas de Nutella de R$ 58,60 e um par de sandálias de R$ 21,98.
Flávio também comparou os preços atuais com valores supostamente praticados em 2019, primeiro ano do governo de seu pai, sem apresentar uma comparação entre uma cesta idêntica, comprada no mesmo estabelecimento e nas mesmas condições.
Dimas recupera encarte de 2022
Para colocar a comparação à prova, Dimas Gadelha escolheu produtos encontrados no encarte do Guanabara de julho de 2022 e verificou quanto custavam agora nas prateleiras.
“Entrei no Google, pesquisei ‘encarte Guanabara julho de 2022’ e encontrei este encarte aqui, com as ofertas do período de 12 a 15 de julho de 2022. E você também pode fazer essa pesquisa. É muito fácil”, explicou.
Entre os produtos que, segundo o levantamento do deputado, estavam mais baratos agora do que durante o último ano do governo Bolsonaro, aparecem:
- arroz Ouro Nobre: de R$ 17,95 para R$ 16,95;
- feijão Máximo: de R$ 7,29 para R$ 6,79;
- açúcar Leão: de R$ 4,19 para R$ 3,19;
- fubá Granfino: de R$ 3,89 para R$ 3,29;
- filé de frango: de R$ 16,98 para R$ 15,47;
- detergente Ypê: de R$ 2,29 para R$ 2,25.
Outros produtos ficaram mais caros. O café Pilão, por exemplo, passou de R$ 18,98 no encarte promocional de 2022 para R$ 26,90. O sabonete Lux passou de R$ 1,99 para R$ 2,49, enquanto o creme dental Colgate subiu de R$ 5,99 para R$ 7,49.
Também houve aumento no papel higiênico Mimo, de R$ 13,98 para R$ 17,30, e na picanha, que aparecia em promoção por R$ 79,98 em 2022 e foi encontrada por R$ 88,90 fora de promoção.
Diferença no caixa foi de apenas R$ 2,27
Depois de reunir os produtos, Gadelha comparou o custo total da cesta nos dois períodos. Com os preços do encarte de julho de 2022, a compra custaria R$ 207,40. Com os preços encontrados atualmente, o valor chegou a R$ 209,67.
A diferença nominal foi de apenas R$ 2,27, equivalente a aproximadamente 1,1%. O resultado é ainda mais significativo porque parte dos valores antigos havia sido retirada de um encarte promocional, enquanto alguns preços atuais foram encontrados diretamente nas prateleiras.
A comparação feita pelo deputado não significa que todos os alimentos estejam mais baratos ou que o custo de vida tenha deixado de pressionar as famílias. Preços variam conforme cidade, estabelecimento, marca, safra e período promocional.
Os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por exemplo, mostram essa oscilação: depois de subir 1,65% em maio, a alimentação no domicílio recuou 0,39% em junho de 2026. Café moído, frutas e carnes ficaram mais baratos no mês, enquanto o feijão-carioca registrou alta.
O levantamento de Gadelha, no entanto, desmonta a tentativa de usar um carrinho específico, recheado com produtos para churrasco, Nutella e sandálias, como prova definitiva de que os brasileiros compravam mais durante o governo Bolsonaro.
Salário mínimo ampliou poder de compra
O deputado também acrescentou à comparação um dado ignorado por Flávio Bolsonaro: a evolução da renda de quem recebe um salário mínimo.
Em 2022, o piso nacional era de R$ 1.212. O valor foi definido por lei durante o governo Bolsonaro.
Em 2026, o salário mínimo chegou a R$ 1.621, um crescimento nominal de aproximadamente 33,7% em relação a 2022. O novo valor está em vigor desde 1º de janeiro.
Pelos números apresentados no vídeo, um salário mínimo permitia comprar cerca de 5,8 cestas de R$ 207,40 em 2022. Atualmente, o mesmo cálculo permite adquirir aproximadamente 7,7 cestas de R$ 209,67.
A diferença está ligada também à retomada, no governo Lula, da política permanente de valorização do salário mínimo. A legislação prevê a reposição da inflação somada ao crescimento real do Produto Interno Bruto, dentro das regras fiscais vigentes.
“Você viu, né? Por mais que eles queiram te enganar, ficou claro que o seu poder de compra aumentou muito no governo Lula”, afirmou Gadelha ao final do vídeo.
E concluiu, dirigindo-se à narrativa difundida pelo filho de Jair Bolsonaro: “O resto é história para boi dormir. É história de mentiroso”.
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