Material obtido com exclusividade pelo jornalista Paulo Motoryn mostra que a aproximação foi intermediada pelo advogado Ciro Soares, o mesmo que posou com o PGR Paulo Gonet. Reunião ocorreu na sede do instituto de Mendonça em São Paulo.
ensagens e áudios extraídos do celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, revelam que o banqueiro teve um encontro secreto com o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, em 14 de março de 2025, em São Paulo. A reunião, realizada no endereço do Instituto Iter, fundado pelo próprio magistrado, durou cerca de duas horas e foi articulada durante semanas pelo advogado baiano Ciro Rocha Soares e pelo deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP).
O material foi obtido com exclusividade pela newsletter Noites Húngaras, do jornalista Paulo Motoryn, e indica ainda que Mendonça tinha conhecimento prévio dos problemas enfrentados pelo Banco Master no Banco Central antes de se reunir com Vorcaro – leia a íntegra da reportagem de Paulo Motoryn na newsletter Noites Húngaras
O Encontro Secreto
No dia 14 de março de 2025, Daniel Vorcaro e o ministro André Mendonça se encontraram em São Paulo por cerca de duas horas. O local escolhido foi o endereço de um instituto fundado pelo próprio ministro, o que conferia ao encontro um caráter reservado, fora das instalações oficiais do Supremo Tribunal Federal. A reunião não constava de nenhuma agenda pública conhecida.
As informações foram obtidas com exclusividade pela newsletter Noites Húngaras, de Paulo Motoryn, a partir de mensagens e áudios extraídos do celular de Daniel Vorcaro. A apuração incluiu checagem minuciosa de datas, horários, interlocutores e endereços, com cruzamento de registros e dados públicos para verificação independente dos fatos. Todos os principais envolvidos foram procurados antes da publicação e tiveram a oportunidade de apresentar sua versão ou contestar as informações.
O encontro entre o controlador de uma das maiores instituições financeiras do país e um ministro da mais alta corte do Judiciário, realizado em local privado e sem registro público, ganha peso adicional diante do contexto revelado pelo próprio material: Mendonça havia sido informado previamente sobre os problemas que o Banco Master enfrentava no Banco Central, e a reunião foi o resultado de uma articulação deliberada conduzida por pessoas de sua proximidade.
A Articulação da Reunião
A aproximação entre Vorcaro e Mendonça não foi espontânea. Durante semanas, o advogado baiano Ciro Rocha Soares e o deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP) trabalharam para viabilizar o contato entre o banqueiro e o ministro do STF. O processo começou a ganhar forma em 7 de fevereiro de 2025, quando Ciro fez sucessivas tentativas de telefonar para Vorcaro. Após as chamadas perdidas, enviou mensagens curtas: “Opa”, “me liga” e, às 14h03, acrescentou: “Tô [com] André M.”.
No dia seguinte, 8 de fevereiro, Ciro encaminhou ao banqueiro uma fotografia na qual aparecia ao lado de André Mendonça, supostamente tirada em uma unidade da Alfaiataria Vasco Vasconcelos, empresa com endereços em São Paulo e Brasília. A imagem veio acompanhada de um áudio que deixava pouco espaço para interpretação: “Fala, Vorcarinho, trabalhando por você! Levei o André lá no Vasco [alfaiataria] agora, pra fazer um terno.”
“Fala, Vorcarinho, trabalhando por você! Levei o André lá no Vasco [alfaiataria] agora, pra fazer um terno.”
A sequência de mensagens, que vai de fevereiro até a realização do encontro em março, traça uma linha clara de articulação: Ciro se apresentava a Vorcaro como alguém que operava em seu favor junto ao ministro, cultivando a proximidade com Mendonça e reportando os avanços ao banqueiro.
O Conhecimento Prévio de Mendonça
O material vai além da simples confirmação de um encontro. Segundo os áudios obtidos pela Noites Húngaras, o ministro André Mendonça já havia sido informado sobre os problemas do Banco Master no Banco Central antes de se reunir com Daniel Vorcaro. A informação chegou a ele por duas vias: pelo próprio Ciro Rocha Soares e pelo deputado Cezinha de Madureira, que teria conversado com o ministro sobre o assunto em momento anterior.
Em um dos áudios, Ciro relatou ter deixado Mendonça “balançado” com o tema e afirmou que o ministro havia manifestado interesse em receber o banqueiro pessoalmente. A fala de Ciro, registrada nas mensagens, é direta.
“O André Mendonça disse que quer te receber junto comigo. Ele sabe, soube da situação do Banco Central toda. Eu contei. Ele já sabia que o Cezinha já tinha falado com ele.”
A declaração, atribuída por Ciro ao próprio Mendonça, indica que o ministro não apenas aceitou o encontro, mas o fez com conhecimento do contexto regulatório que envolvia o Banco Master. O material não esclarece o que foi discutido durante a reunião de duas horas em março, nem qual providência Vorcaro pretendia obter. O que os áudios comprovam é que a pauta chegou ao ministro antes mesmo de Vorcaro entrar pela porta.
O Papel dos Intermediários
Ciro Rocha Soares é advogado com atuação na Bahia e sócio do escritório Rocha Soares Advogados Associados, sediado em Salvador. Nas mensagens e áudios, ele se posicionava como alguém com acesso direto a Mendonça e disposto a usar essa proximidade em benefício de Vorcaro. O material, no entanto, não esclarece se Ciro mantinha algum contrato formal com o banqueiro, com o Banco Master ou com empresas ligadas ao grupo. O que as mensagens mostram é que ele apresentava sua atuação junto ao ministro como um serviço prestado ao banqueiro, usando expressões como “trabalhando por você”.
O deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP) também teve papel ativo na articulação. Segundo os áudios, ele conversou com Mendonça sobre os problemas do Banco Master no Banco Central antes do encontro de março, abrindo caminho para que o ministro chegasse à reunião já informado sobre o contexto. A participação de um parlamentar federal na intermediação entre um banqueiro com dificuldades regulatórias e um ministro do STF é um dos elementos mais sensíveis revelados pelo material.
A combinação de um advogado que se apresenta como operador junto ao ministro e de um deputado que prepara o terreno com informações sobre o caso configura uma articulação de bastidores estruturada, ainda que o material não permita afirmar a existência de qualquer acordo formal ou ilícito entre as partes. O que os registros demonstram é que o acesso ao ministro foi construído de forma deliberada, ao longo de semanas, por pessoas com proximidade ao STF.




