Flávio Bolsonaro se pronuncia sobre suposto plano para retirar Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil

Antigo projeto da bancada evangélica voltou a ser associado ao senador em meio a uma ofensiva da Igreja Católica em prol da soberania nacional, bandeira de campanha de Lula

candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL) foi às redes sociais nesta quinta-feira (24) para negar que tenha qualquer intenção de retirar Nossa Senhora Aparecida da condição de Padroeira do Brasil. A manifestação ocorreu após a circulação de publicações que associaram o senador a um suposto movimento para alterar o título religioso, em meio a uma disputa simbólica envolvendo católicos e evangélicos no debate eleitoral.

Em um vídeo publicado nas redes sociais, Flávio afirmou que a informação era falsa e acusou adversários políticos de disseminarem uma mentira.

“Estamos aqui na correria de agenda em Minas Gerais e sou surpreendido com uma mentira, uma fake news daquela, pra variar, que a milícia do PT está inventando na internet: que eu iria tirar a padroeira do Brasil. Isso é uma grande mentira. Não tem pé nem cabeça. Não existe esse projeto”, declarou.

Na legenda da publicação, na qual Flávio sequer cita o termo “Nossa Senhora Aparecida”, o senador afirmou respeitar todas as religiões e também quem não possui religião. “Deus no comando sempre!”, escreveu.

O episódio ganhou repercussão após a jornalista Maria Cristina Fernandes, da GloboNews, mencionar a existência de uma movimentação em setores da Igreja Católica em reação a uma suposta articulação de grupos evangélicos para retirar Nossa Senhora Aparecida do posto de padroeira nacional.

Projeto de lei de 2007 voltou ao centro do debate eleitoral

A associação do tema ao nome de Flávio Bolsonaro passou a circular principalmente por conta de uma declaração dada pelo senador durante a pré-campanha, quando afirmou que, caso fosse eleito presidente, declararia o Brasil como “pertencente a Jesus Cristo”.

Assista:

Uma proposta apresentada na Câmara dos Deputados em 2007 já previa alterar a condição de Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil. O projeto de lei foi protocolado pelo então deputado federal Victório Galli (MT) e acabou arquivado em 2008.

Galli, ligado à bancada evangélica, disputou uma vaga na Câmara em 2018 pelo PSL, partido pelo qual Jair Bolsonaro concorreu à Presidência naquele ano. O político mantém registros públicos de proximidade com a família Bolsonaro, incluindo fotografias ao lado de Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro e Michelle Bolsonaro. Atualmente, Victório Galli é candidato a deputado federal pelo Progressistas (PP) em Mato Grosso e apoia a candidatura de Flávio Bolsonaro à presidência.

Embora o projeto não tenha sido de autoria de Flávio Bolsonaro, a proposta voltou a circular durante a atual disputa eleitoral diante da proximidade política do senador com setores evangélicos e de suas declarações sobre a relação entre fé cristã e Estado.

Igreja Católica amplia debate sobre eleições e soberania nacional

A polêmica acontece em um momento em que setores da Igreja Católica brasileira vêm ampliando manifestações sobre participação política, democracia, pobreza e soberania nacional.

Nos últimos dias, dioceses e bispos divulgaram orientações aos fiéis sobre critérios para o voto, defendendo temas como defesa dos mais pobres, justiça social, proteção ambiental e compromisso com o bem comum.

Uma cartilha distribuída pela Diocese de São João da Boa Vista (SP) apresentou princípios cristãos para a escolha de representantes, sem citar candidatos ou partidos. O documento gerou reação de apoiadores do campo bolsonarista, que interpretaram a iniciativa como uma orientação política favorável à esquerda.

Também ganhou repercussão a fala do arcebispo emérito de Aparecida, Dom Orlando Brandes, durante uma celebração na Basílica Nacional. Sem declarar apoio a candidato ou partido, o religioso defendeu que os brasileiros escolham seus representantes pensando no bem comum e afirmou que nenhum poder estrangeiro deve interferir nos rumos do país.

A manifestação foi associada por setores ligados ao governo Lula ao discurso de soberania nacional defendido pelo presidente, especialmente diante das tensões envolvendo os Estados Unidos de Donald Trump.

Religião entra no centro da disputa eleitoral

O presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Dom Jaime Spengler, afirmou nesta semana que a Igreja Católica não declara preferência por candidatos ou partidos e criticou a mistura entre religião e política.

O debate, no entanto, evidencia a presença crescente das pautas religiosas na disputa eleitoral de 2026. Flávio Bolsonaro tem reforçado em sua campanha referências à fé cristã e ampliado sua interlocução com setores evangélicos.

Ao mesmo tempo, segmentos católicos têm colocado no centro de suas manifestações temas como soberania, democracia, justiça social e combate à desigualdade.

A discussão sobre Nossa Senhora Aparecida passou, assim, a integrar uma disputa mais ampla sobre o papel da religião na política brasileira às vésperas da eleição presidencial.

Redação com revistaforum