Blaze autorizou que Tomaz pudesse sacar dinheiro sem precisar fazer reconhecimento facial e sugeriu apostas com criptomoedas
Diálogos entre o advogado Willer Tomaz e o concierge da Blaze responsável por atendê-lo mostram que eles combinavam práticas proibidas pela regulamentação federal de apostas on-line.
Em uma das conversas, transcritas em uma ata notarial juntada aos autos de uma ação de Willer contra a Blaze, revelada com exclusividade pela coluna Demétrio Vecchioli, o advogado relatou ao concierge que estava sofrendo questionamentos de bancos e de órgãos reguladores pelo volume excessivo de transações bancárias.
O gerente VIP sugeriu abertamente uma opção ilegal: “Você teria interesse em fazê-los por meio de criptomoedas? Dessa forma, não ficamos presos a determinados limites e podemos movimentar valores maiores por depósito e saque”.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesO advogado aceitou. “Nós podemos tentar. Você me guia?“, respondeu, ainda que não pudesse alegar que desconhecia que a legislação federal exigia que todos os aportes e retiradas ocorressem exclusivamente por transferência eletrônica entre contas cadastradas em instituições autorizadas pelo Banco Central – afinal, ele advogava para a empresa responsável pela intermediação de pagamentos no Rio de Janeiro.
A partir dali, Willer começou a fazer apostas de valores ainda mais altos. Durante dois minutos, entre 21h58 e 22h do dia 31 de outubro de 2025, ganhou R$ 2,5 milhões e perdeu o mesmo montante, sempre em apostas de R$ 500 mil em uma mesa de cassino virtual exclusiva para ele.
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Quando tentou sacar os lucros do dia, Willer esbarrou em uma nova dificuldade: os R$ 6 milhões requisitados foram transferidos pela Blaze em 400 depósitos de R$ 15 mil, valor máximo de Pix autorizado pelo Banco Central para instituições de pagamento não autorizadas.
Liberado do reconhecimento facial
Os valores envolvidos nas apostas ficaram tão surreais que a Blaze, 10 dias depois, enviou um bônus de fidelidade de R$ 3 milhões para Willer.
O advogado rapidamente perdeu o dinheiro e pediu ajuda: “A semana foi uma tragédia. Veja o que você pode fazer por mim”, pediu ao concierge, que liberou um bônus uma semana depois. Willer reclamou do valor: “Só R$ 100 mil?”. Recebeu como resposta que, dias antes, já havia usado outro bônus, de R$ 1,7 milhão.
Naquele momento, Willer já se beneficiava de outra irregularidade: uma autorização para fazer transferências sem precisar de reconhecimento facial, o que também era exigido pela legislação federal.
A exceção à lei foi liberada pela Blaze após reclamação do advogado logo nos primeiros dias após o início do mercado regulamentado. “Todos os saques estão pedindo reconhecimento facial. Isso dificulta muito, amigo”, protestou ao concierge.
Informado de que se tratava de imposição da nova regulação federal, ordenou: “Meu Deus. Então aumenta o limite para saque, para R$ 500 mil por saque. Senão irá inviabilizar o tamanho do meu jogo. Esse reconhecimento facial está demorando até um minuto”.
O concierge logo voltou com uma solução proibida pela regulamentação que havia acabado de ser implementada: “Você não vai mais ser amolado com o reconhecimento facial, então você pode fazer quantos pedidos [de saque] quiser”.
Documentos juntados aos autos pela Blaze mostram que Willer, que movimentou cerca de R$ 10 bilhões em apostas on-line somente em 2025, chegou a um acumulado de R$ 13 bilhões em junho de 2026. O TJSP rejeitou o pedido formulado pelo advogado (e sócio) dele, Eugênio Aragão, que queria o bloqueio de R$ 144 milhões da Blaze para repor as perdas de Willer com o jogo.
Ao apresentar sua defesa no processo, a Blaze rebateu ponto a ponto das acusações feitas por Willer, mas não comentou sobre a sugestão de uso de criptomoedas nem sobre o fracionamento de depósitos. A coluna não conseguiu contato com a empresa. Willer não respondeu aos contatos da reportagem até a publicação deste texto
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