Campanha de Flávio pagou empresa de sistema de IA para manipular eleições, diz site

Elytron propôs uma operação clandestina para identificar eleitores, criar contas falsas, disseminar desinformação e descredibilizar adversários

O candidato à presidência do Brasil, senador Flávio Bolsonaro (PL), pagou R$ 600 mil a uma empresa que tentou vender nos Estados Unidos um sistema de inteligência artificial (IA) clandestino para manipular eleições. A tecnologia oferecida incluía a criação de contas falsas, disseminação de desinformação, infiltração para descredibilizar adversários e ‘técnicas de guerra psicológica’. O PL também admitiu ter pago R$ 131,9 mil à mesma companhia.

Segundo documentos obtidos pelo The Intercept Brasil , a Elytron, empresa brasileira de cibersegurança, apresentou uma proposta de operação clandestina de influência política baseada na coleta massiva de dados e na identificação de grupos de eleitores. A partir do perfil dos alvos, o sistema permitiria executar ações para influenciar a opinião pública, espalhar boatos e comprometer a imagem de adversários políticos.

São essas ações, chamadas de “comportamentos inautênticos”, que diferenciam uma operação de influência ilegal e clandestina de uma mera estratégia de marketing político, comum em campanhas eleitorais.

Os registros foram entregues ao veículo por Vincent Edward Reed, empreendedor e tecnologista estadunidense que atuou como consultor da Elytron entre 2024 e 2025. Ele também intermediou a apresentação da tecnologia a pessoas ligadas à campanha do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em 2024. O sistema foi demonstrado a republicanos, mas não há confirmação de que tenha sido contratado.

Reed afirma que rompeu com a empresa após perceber que a Elytron  possui sistemas que violam preceitos éticos e legais. “Quando vi a demonstração [do sistema] e o dashboard, pude entender do que era capaz. E isso foi preocupante para mim porque vi que estava mirando eleitores e poderia atingi-los com deepfakes de IA”, disse.

O ex-consultor denunciou a operação ao FBI e ao Comitê de Supervisão da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos, mas, as apurações não avançaram. O pagamento de R$ 600 mil do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro à empresa chamou a atenção de Reed, que decidiu revelar a história ao Intercept. No entanto, não há evidências que comprovem que o sistema de manipulação política denunciado por ele tenha sido usado por Flávio ou pelo PL nas eleições de 2026.

Pagamentos declarados pela campanha de Flávio

De acordo com os registros do DivulgaCand, sistema da Justiça Eleitoral que reúne informações sobre candidaturas e despesas de campanha, Flávio apresentou três notas fiscais: duas de R$ 500 mil, emitidas em 16 de setembro de 2026 – uma delas cancelada -, e outra de R$ 100 mil, emitida em 2 de outubro. Todas as notas juntas somam R$ 600 mil endereçados à Elytron.

As notas descrevem os serviços como “consultoria em tecnologia da informação” e mencionam atividades de “apoio forense”, “investigação de phishing” – possível referência a um tipo de ataque cibernético, embora a grafia esteja errada -, “testes de segurança” e “monitoramento de infraestrutura”.

Apesar de os pagamentos registrados somarem R$ 600 mil, a prestação de contas parcial apresentada pela campanha no fim de setembro indicava uma despesa de R$ 1 milhão com a empresa.

O PL, por sua vez, declarou um pagamento de R$ 131,9 mil à Elytron em 20 de julho deste ano. O registro descreve o serviço como prestação de “serviços técnico-profissionais”.

Partes negam contratação de serviços ilegais

Procurada, a campanha do senador afirmou que “não contrata nenhum serviço que viole a legislação eleitoral” e classificou como grave e com “claro viés político eleitoreiro” a “tentativa de associar a contratação de um serviço exclusivo de segurança da informação para proteger os sistemas de comunicações contra ataques cibernéticos com práticas de manipulação política”.

A assessoria frisou ainda que a contratação seguiu procedimentos regulares.

Em nota, a Elytron disse que “repudia veementemente qualquer tentativa de associar seu nome à disseminação de informações falsas, ao uso de deepfakes ou à realização de operações clandestinas de manipulação da opinião pública”.

De acordo com a nota, a companhia disse que não prestou serviços para a campanha de Trump e que não autorizou a “realização de apresentações comerciais em seu nome para oferecer operações de influência política”.

A Elytron afirmou que apurará os fatos e eventuais responsabilidades relacionadas ao uso indevido de seu nome.

Quanto aos serviços prestados à campanha de Flávio e ao PL, a empresa destacou que “possuem finalidade técnica e preventiva, voltada à proteção cibernética, à segurança das comunicações, à preservação da confidencialidade de informações e à proteção da infraestrutura tecnológica dos contratantes”.

Ligações sinuosas

Além de Flávio, a empresa também tem relações com outras figuras da extrema direita brasileira, como o político Pablo Marçal, que passou a integrar a campanha do candidato do PL no fim de setembro após ter sua candidatura à Presidência da República proibida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A companhia ainda tem conexões em Portugal e com autoridades dos Emirados Árabes Unidos, entre elas o xeque Tahnoon bin Zayed Al Nahyan, chamado pelo Wall Street Journal de “xeque espião”.

Interferências nas eleições brasileiras

A operação de um sistema de manipulação política de IA nesses moldes violaria as leis que regulamentam as eleições no Brasil porque compromete a integridade do processo eleitoral. O uso de uma ferramenta com este fim também vai contra políticas e regras de uso das próprias plataformas de redes sociais.

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