Janones mobiliza redes para resgatar discurso de Jair Bolsonaro em favor de deputado condenado por chacina
O deputado federal André Janones (Rede-MG) impulsionou uma mobilização digital que fez disparar o volume de pesquisas no Google sobre a relação entre Jair Bolsonaro (PL) e o ex-deputado Talvane Albuquerque.
Em meio à reta final da disputa do segundo turno entre o presidente Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), a iniciativa do parlamentar mineiro visa reavivar a memória de um pronunciamento feito por Jair Bolsonaro na Câmara dos Deputados em 1999. Na ocasião, o então deputado federal pelo PPB do Rio de Janeiro se posicionou contra a perda do mandato de Albuquerque, que acabou cassado e posteriormente condenado como mandante da morte da deputada federal Ceci Cunha (PSDB-AL).
A ação foi coordenada por meio do canal de Janones – “Exército do Lula” – no aplicativo WhatsApp, espaço que reúne mais de 8 milhões de participantes. Na mensagem transmitida na quinta-feira (22), o deputado instruiu os seus seguidores com uma ordem direta: “Joguem todos no Google: Bolsonaro Talvane Albuquerque”. O objetivo central da tática é inflar o volume de termos negativos ligados à família Bolsonaro nas ferramentas de busca e alavancar a visibilidade do assunto em indicadores como o Google Trends.
Embora o pico de pesquisas evidencie a eficácia da convocação nas redes, o Google Trends apenas monitora a oscilação de interesse do público por determinados nomes e temas. O indicador não atesta a veracidade das informações consultadas e tampouco demonstra que a mobilização coordenada tenha a capacidade de alterar, por si só, a exibição natural dos resultados no buscador.
A controvérsia resgatada remonta ao massacre conhecido como Chacina da Gruta, ocorrido em 16 de dezembro de 1998, na cidade de Maceió. Naquele dia, a deputada Ceci Cunha, seu marido Juvenal Cunha e outros dois familiares foram assassinados. Na condição de primeiro suplente da coligação e derrotado nas urnas naquele pleito, Talvane Albuquerque planejou o crime contra a colega de bancada para herdar sua cadeira no Congresso Nacional e garantir a proteção da imunidade parlamentar.
Albuquerque tomou posse no cargo em 3 de fevereiro de 1999, mas a permanência no Parlamento durou pouco. Aprovada por 427 votos a favor, 29 contrários, 21 abstenções e um voto em branco, a cassação por quebra de decoro parlamentar se concretizou em 7 de abril do mesmo ano.
Foi durante essa sessão, conduzida por Michel Temer, que Bolsonaro sobressaiu-se como o único parlamentar a discursar abertamente contra o afastamento de Albuquerque. O argumento central utilizado por Bolsonaro foi a ausência de provas definitivas sobre a autoria do homicídio, embora o processo focasse na quebra de decoro provocada pelos contatos do acusado com o pistoleiro Maurício Novaes, o “Chapéu de Couro”.
Em sua fala da tribuna, Bolsonaro declarou: “praticamente estamos condenando o Deputado Talvane Albuquerque por ser o mentor ou autor do assassinato de uma companheira – e não concordo com o assassinato de ninguém nesta Casa. Estamos condenando por ter tido contato com um cidadão, um elemento que foi marginal no passado, e que, pelo que me consta, tinha livre trânsito pelo Brasil. Mas quem aqui nunca teve contato ou conversou com um marginal?”.
A conclusão do processo judicial arrastou-se por 13 anos. Em janeiro de 2012, Albuquerque foi sentenciado a 103 anos e quatro meses de reclusão. Em maio de 2021, o Superior Tribunal de Justiça acolheu recurso para readequar a pena para 92 anos, nove meses e 27 dias de prisão. Desde outubro daquele mesmo ano, o ex-deputado cumpre a condenação em regime domiciliar com o uso de tornozeleira eletrônica.



