Em “Travessias”, obra publicada pela Editorial Caminho, reúnem-se as crónicas de Djamila Ribeiro escritas num período política e socialmente conturbado no Brasil. Uma das vozes mais influentes do feminismo negro contemporâneo, a pensadora brasileira reflete, em entrevista à CNN Portugal, sobre as feridas abertas do colonialismo, a ascensão da extrema-direita e a urgência de humanizar a resistência feminina.
“Existe um risco real de transformar a sobrevivência em destino. Quando romantizamos a resistência, corremos o risco de naturalizar a violência”, alerta. Para Djamila, a descolonização do pensamento é um “processo inacabado” e Portugal e Brasil continuam a ser assombrados por fantasmas históricos que se recusam a enfrentar.
Os Fantasmas da Colonização e a Língua como Arquivo
Inspirada pelo trabalho de Grada Kilomba, Djamila recorda que o racismo, o patriarcado e a colonização funcionam como “espíritos errantes” que prendem as sociedades a histórias mal resolvidas. “Ao resistir a um olhar crítico sobre o passado, Portugal e Brasil não resolvem os seus fantasmas”, afirma.
Sobre a língua portuguesa, a autora reconhece a sua dualidade: se por um lado é ponte, por outro é um “arquivo de violência” que silenciou vozes historicamente caladas. Djamila evoca o conceito de “pretuguês” de Lélia Gonzalez para sublinhar as marcas africanas e indígenas que moldaram o português do Brasil, desafiando a visão de que essas influências sejam meros “erros” linguísticos.
O Brasil e a “Marola” Progressista
Questionada sobre o panorama político brasileiro e o legado de Jair Bolsonaro, a filósofa mantém-se cautelosa. Com a inelegibilidade do ex-presidente, a atenção vira-se agora para o filho, Flávio Bolsonaro, cuja possível candidatura mantém o cenário em aberto.
Djamila recusa a ideia de uma “onda” extremista, argumentando que a estrutura do Brasil — assente em séculos de escravidão e domínio de elites plutocratas — é inerentemente conservadora. “Acredito que só podemos falar em ‘marolas’ progressistas, que são passageiras dentro de uma estrutura branca e masculina”, explica.
A Pandemia da Violência de Género
Um dos pontos mais acutilantes da entrevista recai sobre a condição feminina. Djamila descreve a violência contra as mulheres como uma “espécie de pandemia contínua”, citando casos recentes de feminicídios brutais que chocaram o Brasil.
A autora critica duramente as tentativas de retrocesso nos direitos reprodutivos:
“Vemos setores reacionários a trabalhar para restringir o aborto legal. Por mais que existam grupos a defender isto com a Bíblia na mão, obrigar mulheres e meninas a parir o filho de um violador parece-me diabólico.”
Contra a Romantização da Resiliência
Djamila Ribeiro encerra com um apelo à desconstrução do mito da “mulher negra forte”. Para a autora, essa imagem é um conforto conveniente para a sociedade, pois desresponsabiliza o Estado.
“As mulheres negras não querem ser admiradas apenas por suportarem o insuportável. Querem ter direito à fragilidade, ao descanso e à alegria”, defende. “Travessias” não é, portanto, uma linha reta em direção a um destino final, mas um movimento circular — como o xirê das tradições de matriz africana — que exige decidir, coletivamente, quem pode continuar a dançar nesta jornada.
Redação com cnnportugal




