O grupo Hypers Kids Africa, que reúne crianças e jovens de Uganda e tem 12,9 milhões de seguidores no Instagram, fez uma publicação nesta sexta-feira (9/10) pedindo desculpas pelo vídeo feito em apoio ao candidato Flávio Bolsonaro (PL).
No novo vídeo, as crianças dançam ao som de músicas brasileiras e seguram um cartaz. Nele, pedem “sinceras desculpas ao povo brasileiro por qualquer palavra, ação ou omissão que tenha causado ofensa, divisão ou desconforto”.
“Reconhecemos a história, a resiliência e a importância do Brasil e de sua gente. Valorizamos o respeito, o diálogo e a construção de pontes, e reafirmamos nosso compromisso com a empatia e o entendimento mútuo”, diz o texto do cartaz.
Na quinta-feira (8/10), o grupo disse à BBC News Brasil por e-mail que devolveria os 120 milhões de tokens $B22 recebidos pela publicação em apoio ao candidato.
A quantia foi avaliada pelo grupo em US$ 20 mil, e eles disseram que a expectativa era usar o investimento para terminar a construção da casa do grupo.
A decisão, segundo o Hypers Kids Africa, vem após a reação negativa do público. O vídeo original foi apagado na noite desta quinta, pouco mais de 24 horas da publicação.
“Vamos devolver os tokens a eles, para pedir desculpas a todos, porque pensamos que os tokens serviriam para nos ajudar a construir e terminar nossa casa dos sonhos. Mas houve comentários políticos demais, e não queremos partidos políticos”, diz a resposta à BBC News Brasil.
“Estamos aqui para dançar e fazer as pessoas felizes, não para política. Não sabíamos que as pessoas não iam gostar.”
“Não queremos que as pessoas reclamem sempre na nossa página, porque não sabíamos que não iam gostar”, completaram. “Não podemos estar na política. Amamos muito o Brasil, de todo o coração.”
O grupo não informou quando nem como os tokens serão devolvidos, quem negociou a parceria e quem aprovou o vídeo.
Segundo o Hypers Kids Africa, não houve em nenhum momento contato com campanhas ou partidos.
Crédito,Reprodução
A página, que arrecada recursos para construir casas para crianças em Uganda, publicou o vídeo de apoio a Flávio Bolsonaro na noite de quarta-feira (7/10). Na legenda, anunciou que recebeu, pela parceria, 120 milhões de $B22, ativos digitais que podem ser transferidos e trocados por dinheiro.
Flávio disputa o segundo turno da eleição presidencial com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 25 de outubro.
A iniciativa Brasil 22 Token (B22) foi lançada na terça-feira (6/10), segundo o jornal Folha de S.Paulo. Ela foi promovida no Instagram pelo perfil @hyperskidsafrica, que tem 12,9 milhões de seguidores e aparece no site de criptomoedas como “parceira oficial”.
O vídeo, que acumulava mais de 3,5 milhões de visualizações até o início da noite de quinta-feira (8/10), mostra crianças dançando com camisetas amarelas com uma música ao fundo que diz “vota, vota e confirma, 22 é Bolsonaro”.
“Apoiamos a visão de @nikolasferreiradm, @flaviobolsonaro e @pablomarcal1”, diz a legenda, marcando os perfis oficiais do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), de Flávio e do influenciador Pablo Marçal.
“Junte-se a nós: compre $B22, compartilhe nas suas redes sociais e acesse o site para saber como ganhar tokens inspirando outras pessoas a votar 22!”
Em nota, a equipe jurídica da campanha de Flávio Bolsonaro afirmou que vai entrar com medidas judiciais nas esferas eleitoral, cível e criminal para derrubar o site que oferece as criptomoedas.
A campanha afirma que desconhece a autoria do site, não tem relação com o seu conteúdo nem com a venda de criptomoedas.
Crédito,Reuters
A campanha de Flávio disse ainda que não há perfis contratados para fazer propaganda, “seja de produto ou conteúdo”, e que todas as páginas e canais oficiais foram informados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e seguem a legislação eleitoral.
A assessoria de Nikolas Ferreira afirmou desconhecer conteúdo, e Pablo Marçal foi procurado e não respondeu até a publicação.
A $B22 é uma meme coin, nome dado a moedas digitais que têm origem em memes ou tendências da internet. Elas são usadas para ganhar popularidade em torno desses movimentos, mas carecem de valor intrínseco e são investimentos extremamente voláteis.
Ministra do TSE tira site do ar
Crédito,Reprodução
Nesta sexta-feira (9/10), a ministra Estela Aranha, do TSE, determinou que o site “Brasil 22 Token” — que distribuiu as criptomoedas e fez a parceria com a Hypers Kids Africa — fosse tirado do ar. A decisão veio após uma ação apresentada pela campanha de Lula.
Para a ministra, há “indícios suficientes de possível utilização de vantagem econômica para fomentar a circulação de propaganda eleitoral em ambiente digital”.
Antes da decisão do TSE, o site Brasil 22 Token havia afirmado que a defesa do voto 22 era uma posição própria, que não era manifestação das crianças do projeto nem feita em nome delas.
Segundo o site, parte das vendas da $B22 financiaria projetos para as crianças em Uganda.
O site havia anunciado que distribuiria tokens a usuários que compartilhassem conteúdos incentivando o voto em Flávio Bolsonaro. Ao mesmo tempo, afirmou que a distribuição é independente de voto, preferência eleitoral ou divulgação de propaganda eleitoral.
Disse ainda que o projeto “não é oficial, não é endossado nem tem vínculo com político, partido, candidatura ou campanha”, e que não constitui doação eleitoral.
No rodapé, o site trazia outro aviso: “$B22 é uma memecoin criada pela comunidade, sem valor intrínseco e sem promessa ou garantia de retorno financeiro. Criptoativos são voláteis; você pode perder todo o valor investido. Não é recomendação de investimento”.
O projeto havia anunciado ter mais de 20 criadores de conteúdo com vídeos não listados “prontos para publicação”.
A Brasil 22 Token disse ainda que iria gerenciar o engajamento da Hypers Kids Africa, que, segundo a publicação, perdeu 100 mil seguidores após o vídeo em apoio a Flávio, e que busca republicações de Nikolas Ferreira para ampliar o alcance orgânico.
Segundo a própria lógica da campanha, o engajamento contribuiria para valorizar a moeda.
Em uma sequência de publicações no X, o Brasil 22 Token afirmou na quinta-feira (08/10) que o B22 é uma memecoin na rede Solana, com contrato público e oferta declarada de 1 bilhão de tokens, e não uma campanha oficial de candidato ou partido.
O projeto rebateu a crítica de possível “compra de votos”. O perfil diz que há diferença entre “receber B22 se votar em alguém” e “receber B22 por participar e compartilhar o projeto”.
O perfil afirmou ainda que “isso não significa dizer que projetos que misturam cripto e opinião política estejam fora das regras eleitorais”, e que cada questão precisa ser analisada separadamente.
Quem é o grupo Hypers Kids Africa
Desde 2023, a página Hypers Kids Africa faz sucesso com danças coreografadas. O grupo é formado por crianças e jovens de 7 a 15 anos do subúrbio de Kampala, capital de Uganda, e tem 12,9 milhões de seguidores no Instagram.
Os vídeos viralizaram no Brasil porque as coreografias são embaladas por hits brasileiros, como Sequência de Lovezinho, da cantora Treyce, e Zona de Perigo, de Léo Santana.
Os integrantes costumam dançar com a bandeira do Brasil ao fundo ou a camiseta da seleção brasileira, e os vídeos já foram compartilhados por artistas como Ivete Sangalo.
Butindo Moses é o fundador do grupo.
“Perdi meus pais em um acidente de carro em 2009. Então comecei a ir para as ruas, porque não tinha local para dormir ou para comer. Nas ruas, encontrei muitas crianças e aí decidi criar o grupo de dança”, disse ele em entrevista à TV Bandeirantes.
O grupo participou da 19ª temporada do programa America’s Got Talent e ficou no Top 5 da semana das quartas de final, mas foi eliminado na fase seguinte.
Nas entrevistas durante o programa, os integrantes disseram que o sonho de vencer era conseguir recursos para comprar um terreno e construir uma casa e uma escola em Uganda.
O que diz a lei eleitoral?
Falando à BBC News Brasil antes da decisão do TSE, o advogado Raimundo Fernandes Neto, doutor em Direito Constitucional e coordenador acadêmico da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político (Abradep), havia apontado que a campanha reuniu elementos que poderiam configurar ilegalidades eleitorais.
“É uma engrenagem que junta três camadas bem inusitadas: uma moeda que vai valorizando a partir da sua interação social, um influenciador e uma causa eleitoral muito clara, que é a propaganda do $B22, vinculada ao Bolsonaro”, afirmou.
Segundo Fernandes Neto, a lei veda o uso de influenciador remunerado, e o modelo da campanha remuneraria quem posta e reposta.
“Todos esses influenciadores que vão postar e repostar, cada vez mais as postagens vinculadas ao conteúdo vão valorizar a criptomoeda, e ele receberá de acordo com esse valor. Então ele está sendo remunerado pelas suas postagens.”
Para ele, os beneficiários diretos seriam os criadores da estrutura, sediada fora do país e “vinculados claramente a uma ideologia política”.
“É uma forma de financiamento de influenciadores para a campanha eleitoral, só que não é dinheiro, não é de uma forma direta”, diz.
“É quase um sistema de pirâmide em que vai valer mais a partir da maior adesão e maior é a simultaneidade que se dá às postagens.”
Semelhança com o caso Marçal
Fernandes Neto também viu semelhança com o esquema de campeonatos de cortes de vídeos do influenciador Pablo Marçal nas eleições de 2024, que dava incentivos financeiros a quem conseguisse mais visualizações em trechos de seus vídeos.
“O princípio é o mesmo: eu pagar influenciadores ou pessoas quaisquer que se tornam influenciadores para fazer propaganda”, afirmou.
Ele destacou que não se trata necessariamente de um influenciador famoso: o modelo, segundo ele, “qualifica e remunera todo e qualquer tipo de influenciador”.
Marçal, candidato à Prefeitura de São Paulo pelo PRTB, foi condenado pela Justiça Eleitoral por abuso de poder econômico. Em dezembro de 2025, o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) manteve a inelegibilidade de Marçal por oito anos na ação sobre o concurso de cortes.
Para o especialista, o uso da moeda para financiar ou beneficiar candidaturas já seria vedado pela legislação eleitoral.
Segundo ele, o caso envolve a “junção de dois abusos”: o dos meios de comunicação, já que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) considera as plataformas digitais meios de comunicação social, e o abuso de poder econômico.
Ele avaliou que o uso da moeda para financiar ou beneficiar candidaturas seria irregular, “independentemente do pagamento direto ou não”.
Para ele, o conteúdo foi “nitidamente eleitoral” e ainda desinformativo, porque o apelo filantrópico das crianças de Uganda estaria no fim da cadeia.
E, mesmo que o site expusesse avisos de que não havia vínculo com a campanha, Fernandes Neto avaliou que a campanha de Flávio ainda poderia ser responsabilizada.
“Há uma vinculação direta da página no Instagram e há um benefício direto de imagem, de propaganda, postado na própria página”, afirmou.
Para o especialista, a remuneração não é descolada do conteúdo de propaganda eleitoral.
O professor explicou que, em casos de abuso de poder econômico, a análise, segundo a jurisprudência, recai sobre o benefício que o conteúdo pode trazer à campanha, e não sobre a responsabilidade pessoal do candidato.
“Independente do conhecimento do Flávio ou não”, diz ele.
Caso pode ser investigado?
Fernandes Neto avalia que há uma série de entraves que tornam uma possível investigação mais complexa. Derrubar os perfis, por exemplo, é uma possibilidade que precisaria ser analisada, já que a página não é hospedada no Brasil.
Em repositórios de domínios na internet, o registro do site aparece como privado.
Para o professor, o caso mostra como o meio digital surpreende a cada dia com novas formas de propaganda.
“O direito eleitoral tem que se amoldar a essa realidade, porque o objetivo do direito eleitoral é tornar a disputa igualitária”, diz.
Ele classifica o mecanismo, que une influenciador, criptomoeda e uma aparente causa filantrópica, como “uma maneira muito engenhosa, mas perigosa também, de desinformar”, com possíveis dividendos tanto eleitorais quanto financeiros.
Uma resolução do TSE proíbe o pagamento por perfis no exterior para publicar propaganda eleitoral a favor de candidatos brasileiros. A restrição vale mesmo que as contas estejam em outros países e direcionem conteúdo ao público brasileiro.
As regras vigentes permitem que influenciadores participem da propaganda eleitoral apenas de forma totalmente gratuita e sem impulsionamento de conteúdo. Candidatos, partidos e federações não podem contratar, premiar ou oferecer benefício, nem de forma indireta, a influenciadores que publiquem propaganda.
A reportagem também entrou em contato com o tribunal, mas o TSE afirmou que não se manifesta sobre temas ou casos que possam vir a ser ou são objetos de análise na Justiça Eleitoral.
Redação bbcbrasil



