Especialistas explicam mecanismo conhecido como estivação
Acapacidade de alguns peixes de sobreviver a longos períodos de seca desafia a intuição, mas não a ciência. Em ambientes sujeitos a variações extremas, como lagoas temporárias e áreas alagáveis, certas espécies desenvolveram estratégias biológicas que permitem atravessar meses sem água aparente.
Nessas condições, o organismo entra em um estado de redução metabólica profunda, no qual respiração, circulação e atividade muscular são mantidas apenas no nível mínimo necessário. O animal permanece imóvel, com sinais vitais quase imperceptíveis, o que pode levar à falsa impressão de morte.
Esse tipo de adaptação é conhecido pela biologia há décadas e está associado a ecossistemas em que a alternância entre cheia e seca faz parte do ciclo natural. Em vez de migrar ou morrer, o peixe ajusta o funcionamento do próprio corpo para resistir até que as condições ambientais se restabeleçam.
Nos últimos dias, um vídeo que circulou nas redes sociais reacendeu o interesse público por esse fenômeno ao mostrar um peixe aparentemente inerte, coberto por lama seca, retomando gradualmente os movimentos após o contato com a água. Embora a cena cause espanto, o comportamento registrado se encaixa nos mecanismos já descritos pela literatura científica.
Dormência metabólica e limites biológicos
O mecanismo mais extremo desse processo é a estivação, semelhante à hibernação, observada de forma clássica em peixes-pulmão africanos, capazes de permanecer meses enterrados em substratos úmidos. Durante esse período, o metabolismo é drasticamente desacelerado e o animal pode formar uma camada protetora de muco para reduzir a perda de água.
Peixes de couro comuns em rios brasileiros, como os cascudos, apresentam resistência menor. Algumas espécies conseguem sobreviver por horas ou poucos dias fora da água, desde que o ambiente permaneça úmido, utilizando respiração cutânea ou aérea auxiliar. Não se trata, portanto, de uma capacidade universal entre peixes.
Quando a água retorna, o processo ocorre de forma gradual. O metabolismo se reativa, os movimentos reaparecem aos poucos e o comportamento normal é retomado sem qualquer ruptura fisiológica.
Pesquisadores destacam que fenômenos como esse não representam “ressurreição” nem suspensão da vida, mas adaptações evolutivas específicas, moldadas por ambientes imprevisíveis. Fora dessas condições, a maioria dos peixes não sobrevive à ausência prolongada de água.





