Operação mira esquema que lavou mais de R$ 100 milhões para TCP, CV e PCC; ligação com operador da Al-Qaeda é investigada

Investigações apontaram que a estrutura financeira, chefiada por pessoas de origem libanesa, prestava serviços ao Terceiro Comando Puro (TCP) e também ocultava recursos ligados ao Comando Vermelho (CV) e ao Primeiro Comando da Capital (PCC)

O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro e a Polícia Cdvil eflagraram, nesta quarta-feira, a Operação Hawala, para desarticular uma rede de lavagem de dinheiro que movimentou mais de R$ 100 milhões provenientes do tráfico de drogas. As investigações apontaram que a estrutura financeira, chefiada por pessoas de origem libanesa, prestava serviços ao Terceiro Comando Puro (TCP) e também ocultava recursos ligados ao Comando Vermelho (CV) e ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Durante as apurações, os agentes identificaram ainda uma possível conexão financeira internacional com um integrante de uma estrutura de financiamento da organização terrorista Al-Qaeda. Dez pessoas foram presas.

O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público (Gaeco/MPRJ) denunciou à Justiça 22 pessoas envolvidas no esquema. A Delegacia de Defesa dos Serviços Delegados (DDSD), da Polícia Civil, cumpre dez mandados de prisão e 37 de busca e apreensão contra operadores do esquema, em endereços de Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Paraná (Foz do Iguaçu). Ao chegar ao Morro de São Carlos, na região central do Rio, houve troca de tiros com os bandidos. As equipes também visam a cumprir medidas cautelares de bloqueio de ativos financeiros, indisponibilidade de bens e participações societárias.

A investigação começou a partir da atuação do TCP no São Carlos. Foram analisadas centenas de transações bancárias e as atividades de diversas empresas ligadas aos denunciados. De acordo com as apurações, os mais de R$ 100 milhões foram movimentados entre 2021 e 2024 por meio de empresas de fachada distribuídas em diferentes estados.

 

Segundo o Gaeco, essa movimentação milionária excedia capacidade financeira dos investigados e das pessoas jurídicas envolvidas e revelou uma sofisticada estrutura de lavagem de dinheiro. Segundo a denúncia, o grupo utilizava empresas de fachada recém-criadas, além de técnicas como depósitos fracionados, uso de laranjas, cooptação de contadores e outras manobras destinadas a ocultar a origem dos valores. Com esse esquema, a quadrilha conseguia inserir, dissimular e integrar recursos de origem ilícita ao sistema financeiro.

Os denunciados

 

De acordo com o Gaeco, Bárbara Luzia Souza de Carvalho é uma das principais operadoras financeiras da organização, ao movimentar dezenas de milhões de reais como titular e administradora de empresas com faturamento absolutamente incompatível com esse volume de recursos. Ela foi presa.

Também foram denunciados empresários de nacionalidade libanesa, entre eles os irmãos Reda Zayoun, Yasser Zayoun e Kassem Zayoun. A denúncia do MP também inclui: Thierry Martins Lourenço Ribeiro, Yago Jorge de Souza Daniel, Samuel Morais da Hora, Ali Alfakih, Lucas Gabriel Vidal, Bárbara de Oliveira Rosa, Matheus Victor Duarte Borba, Alax Francesco Bigonha, Bruno Fabio Gonçalves Valiengo, Pablo Leonardo Gonçalves Valiengo, Robson Teles de Farias, Yussef Awad, Rafael Moraes de Melo, Wanderson dos Santos Viana, Luana da Silva Batista, Fouad Mohamad Dib, Kassem Mohamad Diab e Manoel Simão Reinaldo Gomes Filho. A participação deles ainda não foi detalhada pelo MP à imprensa.

Tríplice fronteira

 

As investigações também apontaram elementos que indicam a atuação de integrantes da quadrilha na região conhecida como Tríplice Fronteira (Brasil–Paraguai–Argentina). De acordo com as autoridades de segurança, nessa área, segundo organismos nacionais e internacionais de prevenção à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo, é historicamente monitorada como um importante polo de operações financeiras e logísticas de grupos terroristas. Essas organizações arrecadam recursos por meio de práticas como lavagem de dinheiro, contrabando e tráfico de drogas, além de manterem ligações com facções criminosas brasileiras, como o PCC e o CV. Segundo as apurações, essa estrutura teria sido utilizada para ampliar a capacidade de circulação internacional dos recursos investigados.

Os agentes também identificaram uma relação comercial entre uma empresa vinculada aos investigados e uma pessoa sancionada pelo Office of Foreign Assets Control (Ofac), órgão do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos responsável pela aplicação de sanções econômicas. De acordo com as informações levantadas pelos investigadores, é essa pessoa que integraria uma estrutura de financiamento da Al-Qaeda. A investigação sobre esse vínculo será aprofundada a partir da análise das provas apreendidas durante a operação.

Facilitador do esquema

 

Os dados coletados nas investigações apontaram que uma operadora financeira administrava empresas que movimentaram mais de R$ 47 milhões no período investigado, enquanto um contador responsável pela escrituração de empresas ligadas ao núcleo financeiro da quadrilha seria um dos principais facilitadores do esquema.

Segundo a apuração, ele desempenhava papel fundamental para conferir aparência de regularidade às empresas utilizadas na lavagem de dinheiro, deixando de cumprir obrigações legais relacionadas à prevenção desse crime e à comunicação de operações suspeitas ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Sua atuação é apontada como determinante para a manutenção da estrutura empresarial empregada no esquema. Ainda segundo os agentes, o investigado já figurou em outros inquéritos policiais relacionados a fraudes societárias envolvendo alterações contratuais de empresas inativas e constituição de sociedades utilizadas para práticas ilícitas.

Sufoco financeiro de facções

 

A ofensiva desta quarta-feira busca sufocar financeiramente as organizações criminosas e desarticular a estrutura responsável pela movimentação e ocultação de seus recursos. As investigações prosseguem para identificar outros integrantes do esquema, localizar novos ativos e aprofundar as linhas investigativas relacionadas às movimentações internacionais dos valores ilícitos, em cooperação com órgãos nacionais e estrangeiros especializados no combate à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo.

Estão à frente da ação policiais da Delegacia de Defesa dos Serviços Delegados (DDSD), em conjunto com o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ). A ação mobiliza ainda policiais do Departamento-Geral de Polícia Especializada (DGPE) e da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core). As análises financeiras contaram com o apoio do Laboratório de Tecnologia contra Lavagem de Dinheiro (LAB-LD) da Polícia Civil.