Os endereços da Faria Lima onde os casos Master e PCC se cruzam

Gestora de fundos investigada por ligação com esquema de lavagem do PCC compartilhou endereço com o Banco Master

O 11º andar da torre A do edifício Pátio Victor Malzoni, na avenida Faria Lima — vitrine do poder financeiro paulistano —, aparece em documentos oficiais como endereço vinculado ao Banco Master e à gestora de fundos Trustee DTVM. A Trustee, que prestava serviços ao Banco Master, é citada tanto em investigações da Polícia Federal que envolvem a instituição controlada por Daniel Vorcaro quanto em denúncias sobre o esquema de lavagem de dinheiro atribuído ao Primeiro Comando da Capital (PCC).

O empresário Maurício Quadrado, sócio da Trustee DTVM desde 2022, comandou a área de investimentos do Banco Master entre setembro de 2020 e setembro de 2024. Um levantamento do ICL Notícias em relatórios da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), documentos públicos da Receita Federal e atas de assembleias mostra que a gestora e o Banco Master de Investimentos S/A dividiram o mesmo endereço na Faria Lima.

A reportagem esteve na sexta-feira (16) no local e uma funcionária do edifício confirmou que ambas as empresas funcionavam ali, mas, de acordo com ela, se mudaram há cerca de um ano.

Por meio de nota, a defesa de Daniel Vorcaro informou que “a utilização do mesmo endereço decorreu exclusivamente de contrato regular de compartilhamento de espaço comercial, prática comum no mercado financeiro, que não implica vínculo societário, operacional ou ingerência entre as partes”.

Ainda segundo a defesa do dono do Master, “não houve atuação conjunta, compartilhamento de informações sensíveis ou coordenação de atividades entre o Banco Master Investimentos e a Trustee DTVM em razão da co-localização”. “A Trustee DTVM não possui relação societária com o Banco Master Investimentos nem integra, ou integrou, o Grupo Master. As duas instituições são juridicamente independentes, com estruturas de controle, administração e operações próprias”, acrescentou.

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Daniel Vorcaro – Divulgação

As investigações da Polícia Federal nas operações Compliance Zero – que apura um esquema bilionário de fraudes financeiras – e Carbono Oculto – que investiga a ligação de fundos de investimentos com o crime organizado – apontam que a Trustee DTVM foi usada para lavar recursos de origem ilícita, oriundos do Banco Master e do PCC.

A PF também identificou a participação de outra administradora de fundos nos dois esquemas: a Reag, liquidada na quinta-feira (15) pelo Banco Central que, em novembro do ano passado, já havia decretado a liquidação do Banco Master.

Em relação às denúncias mencionadas no âmbito da operação Compliance Zero, a defesa de Daniel Vorcaro informou que o banqueiro “nega qualquer irregularidade, segue colaborando integralmente com as autoridades competentes e confia que o esclarecimento dos fatos afastará interpretações que não refletem a realidade”. A reportagem também entrou em contato com a Trustee DTVM e com a Reag, mas não obteve retorno.

Edifício B32 (crédito Flávio VM Costa)
Edifício B32 (Foto: Flávio VM Costa)

Mesmas empresas, mesmos personagens

Além das empresas, figuram como alvos das duas investigações o ex-dono da Reag, João Carlos Mansur, e o ex-diretor da Trustee DTVM, Artur Martins de Figueiredo. Reportagem do portal UOL revelou que a PF encontrou no celular de Artur conversas com uma pessoa apontada como intermediária de Daniel Vorcaro.

Artur assumiu, em setembro de 2020, o lugar de Vorcaro na direção da Banvox Holding, empresa fundada pelo dono do Banco Master e por Maurício Quadrado em julho daquele mesmo ano. No inquérito da Operação Carbono Oculto, a PF sustenta que a Banvox DTVM, sócia da holding, também administrava fundos utilizados no esquema de lavagem do PCC.

A Banvox, por sua vez, está associada a outro endereço da Faria Lima, igualmente relacionado à Trustee DTVM: o 11º andar do edifício B32, mais conhecido como prédio da baleia. A reportagem esteve no local  e confirmou que as empresas funcionam no endereço. Conforme noticiado pelo jornal O Globo, o Banco Master deixou o andar em dezembro do ano passado.

O ICL Notícias procurou  a Banvox, mas assim como a Trustee DTVM, a empresa não respondeu até a publicação desta reportagem.

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João Carlos Mansur. Reprodução/Linkedin

Banvox e Trustee também administravam fundos ligados ao empresário Nelson Tanure, apontado nas investigações da Compliance Zero como sócio oculto do Banco Master. Em entrevista ao jornal O Globo, Tanure negou ter qualquer vínculo com o Master e rechaçou as suspeitas levantadas contra ele.

Tanure aparece nas investigações como um dos elos entre o Master, a Trustee e a Reag. O Banco Central identificou que recursos desviados do Master para fundos ligados à Reag tinham como destinatário final empresas de laranjas ligadas ao empresário, conforme mostrou o UOL.

Tanure foi um dos alvos da Compliance Zero nesta quarta-feira, junto ao ex-dono da Reag, João Carlos Mansur, além de Daniel Vorcaro, seu cunhado, Fabiano Zettel e seu primo e sócio Felipe Cançado Vorcaro.

Conexões políticas com o Centrão

Os atores políticos ligados aos personagens que aparecem na Compliance Zero e na Carbono Oculto também são comuns, sendo os principais expoentes os presidentes do PP e do União Brasil, senador Ciro Nogueira (PP-PI) e o advogado Antônio Rueda, respectivamente.

No caso do Master, a dupla teria atuado para viabilizar a venda do banco de Daniel Vorcaro para o Banco Regional de Brasília (BRB), que acabou sendo vetada pelo Banco Central. Meses antes, no entanto, o acordo foi aprovado pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Ciro Nogueira e Antonio Rueda também teriam ligações com investigados da Carbono Oculto, conforme mostrou uma série de reportagens do ICL Notícias.

O piloto Mauro Mattosinhos, que transportava regularmente Mohamed Hussein (Primo) e Roberto Augusto Leme (Beto Louco) – a dupla apontada como líder do esquema de lavagem de dinheiro que atendia ao PCC – afirmou que Rueda está entre os verdadeiros donos de quatro dos dez jatos executivos operados pela empresa de Táxi Aéreo Piracicaba (TAP).

Ele também contou ter transportado em voo uma sacola de papelão que aparentava conter dinheiro vivo, na mesma data em que Beto Louco mencionou a outros passageiros que teria um encontro com Ciro Nogueira.

O ICL Notícias mostrou também que Rueda atuou como intermediário em uma negociação para a venda de uma empresa de gás de cozinha ligada a Beto Louco e Primo, de acordo com três líderes do mercado.

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