Parada LGBT+ de SP faz 30 anos e responde nas ruas à ofensiva conservadora

Com o tema “A rua convoca, a urna confirma”, maior manifestação LGBT+ do mundo chega à edição histórica neste domingo (7), reafirmando a resistência nas ruas em meio a ataques e fuga de patrocinadores

30ª Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo ocupa a Avenida Paulista neste domingo (7) com o tema “A rua convoca, a urna confirma”. A edição histórica celebra três décadas daquela que é reconhecida como a maior manifestação LGBT+ do mundo e acontece em meio a um cenário de desinvestimento corporativo e ofensiva legislativa da direita contra a ocupação do espaço público.

A receita do evento caiu 60% em relação ao ano anterior, resultado da saída de grandes patrocinadores. Ao mesmo tempo, a Câmara Municipal aprovou em primeira votação um projeto de lei que proíbe menores de 18 anos em eventos LGBT e exige que a Parada seja realizada em locais fechados, o que, na prática, inviabilizaria sua realização na principal avenida da cidade.

A receita do evento caiu 60% em relação ao ano anterior, resultado da saída de grandes patrocinadores. Ao mesmo tempo, a Câmara Municipal aprovou em primeira votação um projeto de lei que proíbe menores de 18 anos em eventos LGBT e exige que a Parada seja realizada em locais fechados, o que, na prática, inviabilizaria sua realização na principal avenida da cidade.

O tema escolhido para 2026, ano eleitoral, “A rua convoca, a urna confirma”, liga a presença na Paulista ao voto. A mensagem é direta: ocupar as ruas é importante, mas eleger representantes comprometidos com os direitos LGBT+ também é parte fundamental da luta

A programação conta com 14 trios elétricos e shows de artistas como Pabllo Vittar, Gloria Groove, Melody, Urias, Jup do Bairro e Majur, entre mais de 130 atrações distribuídas ao longo do percurso.

Para Matheus Emílio, secretário-geral da Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo (APOLGBT-SP), a trajetória do evento é inseparável das conquistas que vieram depois: “Boa parte, se não todos os direitos que hoje temos enquanto população LGBT+ passaram pela Avenida Paulista em algum momento.”

A Parada integra o calendário oficial de eventos da cidade desde 2016 e é reconhecida pelo Guinness World Records como a maior do mundo.

Menos patrocínio, menos trios

O cenário financeiro da 30ª edição expõe uma ruptura significativa com o ciclo recente. Se em 2024 a Parada chegou ao pico histórico de 18 marcas patrocinadoras, impulsionada pela consolidação das agendas corporativas de diversidade e inclusão, em 2026 esse número despencou para apenas três empresas: a patrocinadora oficial Amstel, o Grupo L’Oréal no Brasil como copatrocinadora e a Philip Morris Brasil como apoiadora.

A consequência direta aparece na estrutura do evento: foram 19 trios elétricos em 2025 e 14 em 2026.

A queda de 60% na receita não é lida pela organização como um acidente de mercado. Segundo Matheus Emílio, o fenômeno tem nome e endereço: “O movimento chamado anti-woke que tem vindo dos Estados Unidos tem impactado nas empresas multinacionais que atuam aqui no Brasil. Elas não destinam verbas específicas para ações de diversidade. A gente tem acompanhado com bastante preocupação esse movimento.”

As motivações internas de cada empresa que deixou de patrocinar o evento em 2026 não foram detalhadas publicamente até o fechamento desta reportagem.

Projeto quer tirar a Parada das ruas

Enquanto o mercado recua em silêncio, a Câmara Municipal de São Paulo avança com mais ataques. Em maio, os vereadores aprovaram em primeira votação o PL 50/2025, de autoria do vereador Rubinho Nunes (União Brasil).

O texto proíbe a participação de menores de 18 anos em eventos públicos ou privados que “façam alusão ou fomentem práticas LGBT+”, impõe classificação indicativa e multas em caso de descumprimento, e veda a interdição de vias públicas para a realização de eventos como a Parada.

Na prática, o projeto tentaria forçar a maior manifestação de orgulho do mundo para dentro de um espaço fechado, esvaziando seu caráter de ocupação pública.

A vereadora Luna Zarattini (PT-SP), que votou contra o projeto, não poupou palavras ao reagir à aprovação:

“Um verdadeiro show de horrores, preconceito e ignorância aconteceu na Câmara Municipal. Foi aprovado em primeira votação um projeto de lei inconstitucional e cheio de ódio, de autoria do vereador Rubinho Nunes, que, na prática, tenta inviabilizar e proibir a realização da Parada LGBTQIA+ na Avenida Paulista, querendo empurrar a maior manifestação de orgulho do mundo para um lugar fechado.”

Zarattini classificou o debate no plenário como “vergonhoso e discriminatório” e anunciou mobilização para tentar barrar o projeto antes da segunda votação. O cronograma exato para essa etapa não havia sido divulgado até a publicação desta matéria.

O Votinho e o recado para as urnas

A resposta da organização ao duplo cerco, o corporativo e o legislativo, é reforçar exatamente o que está sendo atacado: a presença nas ruas como instrumento político.

Uma das ações desta edição é o Votinho, uma urna gigante de 5,5 metros de altura instalada na Avenida Paulista, em frente ao Banco Central. A iniciativa é do VoteLGBT e do Instituto Plena Cidadania e tem como lema “Meu voto não é neutro”.

A proposta é transformar a Parada também em um chamado à participação eleitoral. Em vez de tratar o voto como um gesto distante da vida cotidiana, a ação busca lembrar que direitos, políticas públicas, representação e segurança da população LGBT+ passam diretamente pelas escolhas feitas nas urnas.

O mote dialoga com o tema oficial da Parada, “A rua convoca, a urna confirma”: a mobilização nas ruas denuncia, pressiona e dá visibilidade; o voto, por sua vez, pode confirmar essa força política na escolha de representantes comprometidos com a defesa de direitos.

Além da estrutura gigante, o Votinho carregará um título de eleitor com QR Code, que direcionará o público para uma plataforma com informações sobre as eleições. A proposta é unir arte, presença urbana e comunicação popular para transformar a instalação em um ponto de mobilização cidadã.

A ação dialoga diretamente com o tema da Parada LGBT+ de São Paulo deste ano, que celebra os 30 anos da urna eletrônica. Ao ocupar uma das avenidas mais simbólicas do país com um mascote inspirado nesse símbolo da democracia brasileira, a campanha busca chamar atenção para a importância de proteger o voto, fortalecer a confiança no processo eleitoral e ampliar a participação cidadã.

Embora a estreia aconteça durante a Parada LGBT+, a mobilização não se limita à pauta LGBTQIA+. O Votinho integra uma articulação mais ampla, construída em coalizão com organizações de diferentes causas, agendas e territórios em torno da defesa da democracia, dos direitos humanos e do voto como ferramenta de transformação social.

Horário, acesso e programação da Parada LGBT+ de SP

A concentração da 30ª Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo começa às 10h deste domingo (7), na Avenida Paulista, perto da Rua Peixoto Gomide, próximo ao Masp. Os trios elétricos devem começar a se movimentar entre 12h e 13h, seguindo em direção à Rua da Consolação.

A recomendação é usar transporte público. As estações mais próximas são Consolação, Trianon-Masp e Brigadeiro, todas da Linha 2-Verde do metrô.

A programação reúne 14 trios elétricos. Entre as atrações confirmadas estão Pabllo Vittar, Gloria Groove, Urias, Melody, Pepita, Jup do Bairro, Diego Martins, Thiago Pantaleão, Majur e Katy da Voz e as Abusadas.

A a previsão do tempo, o domingo deve ser de tempo firme, sem chuva, com mínima de 9°C e máxima de 23°C. A recomendação é levar água e se manter hidratado ao longo do dia.

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