Paris, Nova York, Alpes: as viagens de Ciro Nogueira bancadas por Vorcaro, segundo a PF

Além de receber propina em forma de mesada para defender os interesses do Master no Congresso, Ciro Nogueira ainda teria sido agraciado com viagens de luxo por Daniel Vorcaro

APolícia Federal (PF) encontrou indícios de que o senador Ciro Nogueira (PP-PI), presidente do Partido Progressistas, teve ao menos três viagens internacionais bancadas por Daniel Vorcaro, dono do Banco Master que está preso. A operação Compliance Zero, cuja a nova fase, deflagrada na última quinta-feira (7), mirou o envolvimento de Nogueira com o escândalo do Master, revelou que as viagens de luxo ocorreram entre 2024 e 2025, com destinos exclusivos como Paris, Nova York e Courchevel, nos Alpes Franceses.

A primeira viagem, para Paris, aconteceu em abril de 2024. Durante a viagem, Ciro Nogueira foi fotografado em imagens publicadas por sua filha. O segundo destino foi Nova York, em maio de 2024, onde o senador ficou hospedado em um hotel de luxo e frequentou restaurantes sofisticados, sempre com as despesas pagas por Vorcaro. Em janeiro de 2025, a viagem foi para Courchevel, nos Alpes Franceses, onde, além dos voos privados, Vorcaro arcou até com a compra das roupas de frio de Ciro Nogueira.

Propina em troca de apoio e blindagem do Master

Além das viagens de luxo, as investigações apontam que o senador recebeu pagamentos mensais de Daniel Vorcaro, variando entre R$ 300 mil e R$ 500 mil, como parte de um esquema de propina. Esses repasses estariam ligados ao favorecimento de interesses do Banco Master no Congresso. Em troca dos benefícios, Ciro Nogueira teria atuado em favor de Vorcaro ao apresentar projetos de lei favoráveis ao banco, incluindo a famosa “Emenda Master”, que propunha a ampliação da cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).

A emenda buscava aumentar a cobertura do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante, um movimento estratégico para beneficiar os negócios do Banco Master. De acordo com a PF, o texto foi redigido por assessores do banco e entregue diretamente na residência de Ciro Nogueira, que apresentou a proposta no Congresso.

A operação da Polícia Federal também revelou um esquema complexo envolvendo a CNLF Empreendimentos, empresa administrada pelo irmão de Ciro Nogueira, Raimundo Neto, e pela filha do senador, Maria Eduarda Nogueira. A PF identificou depósitos suspeitos em dinheiro vivo, realizados por um funcionário de Ciro, que totalizaram R$ 3,5 milhões em um período de menos de quatro anos.

Além disso, a CNLF foi usada para receber grandes quantias de dinheiro de empresas ligadas a Vorcaro, configurando um possível esquema de lavagem de dinheiro. Investigadores afirmam que a empresa foi criada com o propósito de lavar dinheiro e disfarçar os repasses mensais que chegavam a Ciro Nogueira.

O que diz Ciro Nogueira

A defesa de Ciro Nogueira refuta as acusações e nega que as viagens tenham sido financiadas por Daniel Vorcaro. O advogado do senador afirmou que o encontro entre Ciro e Vorcaro em Nova York foi legítimo e que as despesas foram custeadas por Nogueira. Em relação aos depósitos feitos por Bernardo Filho, funcionário de Nogueira, a defesa alega que os valores se referem a transações legais de vendas de uma loja de motos e não têm relação com qualquer esquema de corrupção.

No entanto, o contexto das investigações levanta sérias questões sobre os vínculos de Ciro Nogueira com Vorcaro, especialmente em um momento de crescente desconfiança sobre a atuação do senador no Congresso. A insistência da defesa em negar as acusações, sem detalhar suficientemente as transações financeiras investigadas, só reforça as dúvidas sobre os interesses ocultos por trás dessas relações.

Delações premiadas e a pressão sobre Daniel Vorcaro

Enquanto as investigações avançam, a pressão sobre Daniel Vorcaro aumenta. A proposta de delação premiada do banqueiro está sendo analisada pela PF e pela Procuradoria-Geral da República (PGR). No entanto, de acordo com fontes da PF, a proposta de Vorcaro não trouxe informações novas ou relevantes sobre o envolvimento de Ciro Nogueira. Investigadores acreditam que o banqueiro tenta minimizar seu envolvimento em um esquema de corrupção, tentando se proteger de maiores consequências legais.

Diante da gravidade das acusações, a Polícia Federal mantém as investigações focadas nas transações financeiras, nos repasses de dinheiro e nos interesses de Vorcaro no Congresso. A continuidade do inquérito pode trazer à tona mais informações, complicando ainda mais a situação de Ciro Nogueira e sua proximidade com o setor bancário.

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