Em 2024, o professor, pesquisador e analista educacional Kleber Saldanha de Siqueira teve seu artigo “Os paradigmas da energia nuclear no Brasil” selecionado para integrar o volume 16, número 31, da Revista Brasileira de Estudos Estratégicos (Rebees), periódico científico vinculado ao Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (Inest/UFF).
O trabalho foi um dos seis estudos selecionados para a edição, que reúne pesquisas nas áreas de Segurança Internacional e Defesa Nacional, contemplando artigos, resenhas e comunicações de pesquisa de relevância acadêmica e social.
No estudo, Kleber, que é também doutorando do Programa de Pós-Graduação em Ensino da Rede Nordeste de Ensino (Renoen), na Universidade Federal de Alagoas (Ufal), percorre diferentes momentos da trajetória nuclear brasileira, analisando aspectos históricos, tecnológicos, econômicos e geopolíticos relacionados ao desenvolvimento do setor. A pesquisa também discute o papel que a energia nuclear pode desempenhar diante dos atuais desafios energéticos e tecnológicos do Brasil.
O artigo está disponível no portal da Revista Brasileira de Estudos Estratégicos. Confira aqui.
Energia nuclear e soberania tecnológica
Segundo Saldanha, a principal conclusão da pesquisa é que a energia nuclear constitui uma alternativa estratégica para o Brasil, especialmente diante da capacidade tecnológica acumulada pelo país ao longo de décadas: “A tecnologia nuclear representa um diferencial competitivo incontestável diante das emergentes e complexas questões econômicas e energéticas globais. O estudo demonstra que o país não apenas possui competência técnica consolidada, evidenciada pelo domínio do ciclo do combustível e do enriquecimento de urânio, mas também dispõe de condições reais para se firmar como um ator de destaque no cenário internacional, fortalecendo a sua soberania tecnológica, econômica e energética”, afirma.
A pesquisa destaca ainda que o Brasil desenvolveu competências próprias em diferentes etapas do ciclo do combustível nuclear, incluindo o enriquecimento de urânio por ultracentrifugação. O estudo também relaciona o domínio tecnológico à capacidade do país de ampliar sua autonomia energética e tecnológica.
Para o pesquisador, esse patrimônio científico e tecnológico pode contribuir para uma maior inserção brasileira no cenário internacional, afinal, discutir a trajetória nuclear brasileira ganhou ainda mais relevância diante das transformações do sistema energético mundial.
Para ele, discutir a trajetória nuclear nos dias atuais é de suma importância porque o cenário energético mundial atravessa constantes instabilidades, crises geopolíticas e flutuações severas nos preços de combustíveis fósseis, motivadas por conflitos recorrentes em regiões produtoras de petróleo, como no Oriente Médio, o que eleva exponencialmente os riscos econômicos globais.
“Em meio a essa transição em busca de matrizes energéticas limpas, seguras e sustentáveis, a energia nuclear ganha um novo fôlego e protagonismo nos debates internacionais. Falar sobre a nossa trajetória histórica permite compreender como o Brasil construiu, com esforço próprio e investimentos contínuos, uma base científico-tecnológica sólida que hoje nos confere soberania. Além disso, debater esse tema é fundamental para conscientizar a sociedade e os tomadores de decisão sobre a urgência de políticas de Estado perenes, que valorizem a inovação nacional, estimulem o desenvolvimento industrial de alto valor agregado e posicionem o Brasil de forma competitiva nos novos mercados globais de alta tecnologia” destaca.
Apesar dos avanços, ele identifica desafios que ainda condicionam a expansão do setor nuclear brasileiro, entre eles, as questões relacionadas à autonomia tecnológica, investimentos, infraestrutura, formação de recursos humanos e inserção do país em um ambiente internacional marcado por mecanismos de controle e não proliferação nuclear.
A ideia é impactar a sociedade ao fomentar o pensamento crítico e a disseminação de informações qualificadas sobre a real importância estratégica, econômica e social da energia nuclear, desmistificando preconceitos e estigmas negativos historicamente associados ao setor. “Ao evidenciar como o domínio tecnológico nuclear reverbera positivamente na economia, na geração de energia limpa, no fortalecimento do setor produtivo e na garantia da soberania nacional, o estudo oferece subsídios teóricos para gestores públicos, pesquisadores e acadêmicos”, lembra.
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