A quinta fase da operação aprofunda as investigações sobre uma suposta rede de vazamento de informações sigilosas que teria beneficiado integrantes do Comando Vermelho
A Polícia Federal deflagrou, na manhã desta quinta-feira, a quinta fase da Operação Unha e Carne para apurar indícios de um esquema de lavagem de dinheiro ligado à nova cúpula do jogo do bicho e possíveis repasses a integrantes dos Poderes Executivo e Legislativo do Estado do Rio. Na ação, os agentes cumprem três mandados de prisão preventiva e 14 de busca e apreensão. Entre os alvos estão o ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) Rodrigo Bacellar, o contraventor Adilsinho — ambos já presos — e o pastor Márcio Poncio, preso pela manhã no flat do Gran Hyatt, na Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste do Rio. Também é alvo da operação Marco Antônio Cabral, filho do ex-governador Sérgio Cabral, contra quem a PF cumpre apenas mandado de busca e apreensão.
Quem são os alvos
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Márcio Poncio é pastor e empresário do ramo do tabaco. Pai da deputada estadual Sarah Poncio (Solidariedade-RJ) e do cantor Saulo Poncio, ele costuma destacar nas redes sociais tanto sua atuação religiosa quanto seu papel como “patriarca da família Poncio” e membro da Igreja da Nuvem. Sua trajetória empresarial no setor de cigarros lhe rendeu o apelido de “pastor do cigarro”.
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Outro alvo é Marco Antônio Cabral, advogado, ex-deputado federal e ex-secretário estadual de Esporte do Rio de Janeiro durante o governo de Luiz Fernando Pezão. Filho do ex-governador Sérgio Cabral, foi filiado ao MDB por 18 anos, partido pelo qual iniciou sua trajetória política, e neste ano é pré-candidato para uma vaga na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) pelo partido da Sarah Poncio, o Solidariedade. Também ocupou cargo na assessoria da Presidência da Alerj, na gestão de Bacellar, onde atuou na interlocução com prefeitos e vereadores.
- Filho de Cabral e Adilsinho, alvos de operação da PF, se conheceram durante organização de festa no Copacabana Palace
Esta não é a primeira vez que um filho do ex-governador Sérgio Cabral tem o nome associado a investigações envolvendo Adilsinho. Em 2023, José Eduardo Neves Cabral foi alvo da Operação Smoke Free, da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, sob suspeita de atuar como operador financeiro do contraventor em um esquema de comércio ilegal de cigarros e lavagem de dinheiro
Em nota, Patrícia Proetti, advogada de Marco Antônio Cabral, diz que o ex-deputado federal nega “qualquer participação em organização criminosa, lavagem de dinheiro ou o recebimento de valores de origem ilícita”.
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Já Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, é um bicheiro conhecido das autoridades de segurança cariocas. Preso em fevereiro deste ano, o contraventor controla a fabricação e a venda de cigarros ilegais na Região Metropolitana do Rio e, hoje, já expande seus negócios ilegais para outros estados.
Adilsinho, contraventor apontado como chefe da máfia do cigarro, é preso pela PF e Polícia Civil do Rio
Sua prisão foi conduzida pela operação da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (Ficco/RJ), com atuação da Polícia Federal e da Polícia Civil. Ele foi capturado em uma residência em Cabo Frio, na Região dos Lagos, após trabalho de inteligência.
Os donos do crime: Antes de ser preso, Adilsinho comandava o bicho e a máfia do cigarro
O ex-presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, foi preso em dezembro na primeira fase da operação da Polícia Federal por suspeita de vazamento na operação que prendeu o deputado Thiego Raimundo dos Santos, o TH Joias. Na terceira fase da operação Bacellar foi preso novamente no âmbito do caso Ceperj, depois de denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR).
Bacellar foi secretário de Estado do governo do Rio de Janeiro e atualmente é deputado estadual. Nas eleições de 2018, concorreu a deputado estadual pelo Solidariedade e foi eleito com 26.135 votos.
Nesta quinta-feira, o ex-presidente da Alerj foi encaminhado a uma unidade da Polícia Federal carregando uma Bíblia King James (KJV), na edição em letra “ultragigante”, versão de luxo. Ele será transferido para um presídio federal.
Entenda a operação
Na ação desta quinta-feira, policiais federais cumprem três mandados de prisão preventiva e 14 mandados de busca e apreensão expedidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em endereços ligados aos investigados nas cidades do Rio de Janeiro e de São João de Meriti, na Baixada Fluminense. O STF também determinou o sequestro de bens e valores de até cerca de R$ 22 milhões.
Esta é a quinta fase da investigação conduzida pela Polícia Federal. As etapas anteriores apuraram a existência de uma suposta rede de proteção que teria permitido o vazamento de informações sigilosas sobre operações contra o Comando Vermelho (CV), comprometendo ações policiais e beneficiando integrantes da facção. Segundo os investigadores, os repasses de informações teriam prejudicado diligências e possibilitado a destruição ou ocultação de provas.
A nova fase da operação teve início após a apreensão, em poder de Adilsinho, de listas que indicariam a existência de registros relacionados a supostos pagamentos indevidos, doações eleitorais e movimentações contábeis ligadas à lavagem de dinheiro. De acordo com os investigadores, os documentos chamaram a atenção por apontarem possíveis repasses diretos de valores a agentes políticos do Estado do Rio.
Segundo a Polícia Federal, as investigações prosseguem com a análise do material apreendido, o rastreamento do fluxo financeiro sob investigação e a apuração da eventual participação de beneficiários, intermediários e operadores do esquema.
A operação se insere no contexto da decisão do STF no julgamento da ADPF 635/RJ, conhecida como ADPF das Favelas, que, entre outras medidas, determinou que a Polícia Federal conduzisse investigações sobre a atuação dos principais grupos criminosos violentos em atividade no estado e suas conexões com agentes públicos.
Operação Unha e Carne
As primeiras fases da Operação Unha e Carne foram deflagradas entre dezembro de 2025 e março deste ano. Na primeira etapa, Rodrigo Bacellar, então presidente da Alerj, tornou-se alvo da investigação sob suspeita de repassar informações sigilosas da Operação Zargun, que mirava o Comando Vermelho. De acordo com a Polícia Federal, o principal beneficiado pelo suposto vazamento seria o ex-deputado Thiego Raimundo de Oliveira Santos, conhecido como TH Joias, apontado como articulador político da facção e preso durante a ofensiva.
Ainda em dezembro de 2025, a investigação avançou para a segunda fase e passou a apurar a origem dos supostos vazamentos. Na ocasião, a Polícia Federal prendeu preventivamente o desembargador federal Macário Ramos Júdice Neto, do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2). Segundo os investigadores, o magistrado teria repassado informações sigilosas a Bacellar, que posteriormente as transmitiria a TH Joias. A PF afirma ter reunido mensagens, registros de ligações e outros elementos que apontariam para uma relação próxima entre os dois.
A terceira fase da operação foi deflagrada em março deste ano. Rodrigo Bacellar voltou a ser preso, desta vez em sua residência, em Teresópolis, na Região Serrana do Rio. A medida foi determinada pelo ministro Alexandre de Moraes após a cassação de seu mandato pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), no âmbito do caso Ceperj, e depois de denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR). Na ocasião, a investigação passou a ser tratada também no contexto da ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas, por envolver possíveis impactos sobre a atuação do Estado no combate ao crime organizado.
Em maio, a quarta fase da Operação Unha e Carne ampliou o foco das investigações e passou a apurar um suposto esquema de fraudes em contratos da Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro. A Polícia Federal cumpriu sete mandados de prisão e 23 de busca e apreensão na capital e nos municípios de Campos dos Goytacazes, Miracema e Bom Jesus do Itabapoana, por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF).
Segundo a corporação, as apurações apontaram indícios de direcionamento de contratos para aquisição de materiais, contratação de serviços e realização de obras de reforma em escolas estaduais. As empresas beneficiadas teriam sido previamente selecionadas e manteriam vínculo com a organização criminosa investigada.



