Zé Crispim foi batizado com o nome de José Rocha, na Matriz de Sant’Ana. Filho do agricultor João Pedro, conhecido no Sertão por João Crispim, que também atendia os sertanejos como rezador, tido como “fechador de corpo”. Por isso, diziam que, no corpo de seu filho, bala não atravessava. Zé Crispim era filho de Dona Josefa Maria da Conceição, que comentava que ele conhecia rastro de cobra e dava nome às cobras que cruzavam os caminhos do Sertão nos anos 50. Estudou pouco, passando mais tempo na roça, até Zé Crispim cometer o primeiro crime, aos 16 anos.
Depois de uma acusação de roubo feita pelo “velho Miguel”, um agricultor e fazendeiro da região, que teria disparado dois tiros contra Crispim, ele voltou para casa, pegou uma espingarda e retornou, matando o homem enquanto ele tomava café. O crime teria sido motivado por vingança e honra, e não por pagamento. Depois desse assassinato, Crispim passou a ser procurado pela Justiça e entrou definitivamente no mundo dos chamados “trabalhos sujos”, crimes de mando realizados mediante pagamento e proteção de homens influentes da região. Zé Crispim teve vários filhos com várias mulheres.
Foi casado com Ednalva Brás do Nascimento e tinha três filhos com ela. Passado algum tempo, Zé Crispim passou um ano em São Paulo, trabalhando em uma fazenda de amendoim. Com a fama de matador em Santana do Ipanema, Crispim foi para Palmeira dos Índios, onde passou a prestar serviços para o político Robson Tavares Mendes. Ali, começou a atuar ao lado de Zé Gago, cujo nome de batismo era José Marcelino da Silva.
Crispim ganhou fama pela pontaria, pela habilidade com armas e também por sua aparência, sendo comparado ao ator americano Marlon Brando, além de ser descrito como elegante, educado, charmoso e galanteador. O deputado estadual Robson Tavares Mendes havia sido prefeito de Cacimbinhas, prefeito de Palmeira dos Índios e deputado estadual pelo PSP. Robson havia contratado Crispim e Zé Gago para sua proteção, e os dois passaram a executar trabalhos ordenados pelo político. Um dos trabalhos seria o assassinato do fazendeiro e vereador Zé Fernandes. Crispim chegou à fazenda e encontrou Zé Fernandes com uma criança nos braços. Por não querer atingir a criança, não matou o fazendeiro.
Ao retornar, Robson teria ficado desconfiado e passado a pretender eliminar Crispim. Crispim, sabendo que poderia ser morto como “queima de arquivo”, teria decidido agir primeiro. Robson Mendes contratou, pela segunda vez, Zé Crispim para assassinar o vereador Zé Fernandes, mas o vereador ofereceu o dobro do valor para salvar sua vida. Zé Crispim aceitou a proposta e, junto com Zé Gago, executou Robson Mendes com trinta e dois tiros, na comunidade de Mata-Burro, simulando um ataque de um grupo de bandidos durante uma viagem.
Zé Crispim e Zé Gago fugiram para o sertão da Bahia e se entregaram à polícia local, sendo posteriormente transferidos para Alagoas. Na prisão, a dupla articulou uma nova fuga, utilizando uma corda feita de lençóis, conhecida como Teresa, e retornando para sua terra natal, Santana do Ipanema. Zé Gago foi para a região de Olho d’Água das Flores, ficando Zé Crispim sozinho no meio do mato. Durante a perseguição policial, Zé Crispim invadiu uma casa no Sítio Gravatá, sozinho e com fome, em busca de comida.
local, acabou surpreendido por um jovem de 17 anos, que reagiu e disparou contra ele, atingindo sua mão. Ferido e perdendo sangue no meio do mato, Zé Crispim acabou cercado Na Serra do Gugi em Santana do Ipanema pela polícia três dias depois e foi morto a tiros, sob a alegação de que teria reagido, versão contestada devido ao seu estado de extrema fraqueza. Seu corpo foi exposto no IML de Maceió, atraindo uma grande multidão e repercutindo em todo o país, com o fim da trajetória do jovem de apenas 22 anos, considerado um dos maiores pistoleiros de Alagoas. Pesquisa e Narração: Fernando Valões Edição: Miguel Rian Fotografias: Roosevelt Valões, Samuel Valões Agradecimentos: Arquivo Público de Alagoas.
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