PODCAST FATOS E NOTAS DO COMENDADOR: Quem Mandou Executar Adeildo Nepomuceno? A Prisão Polêmica de Luciano Gaia

Com apenas um metro e cinquenta de altura, 52 anos de idade, Adeildo Nepomuceno Marques teve uma atribulada carreira política em que não perdeu nenhuma eleição. Seus correligionários chamavam-no de “Getúlio das Alagoas”, pela força ditatorial empregada nos municípios de sua influência.

Olá, pessoal. Estamos chegando com mais um Podcast Fatos e Notas do Comendador. Eu sou Fernando Valões, jornalista desde 1975. Hoje, com novas revelações que jamais foram divulgadas na imprensa. Não esqueça de curtir, preciso de seguidores. Inscreva-se e comente. Vamos ao segundo episódio.

Nas eleições de 1976, em Santana do Ipanema, não existia diretório do MDB. No pleito, Adeildo foi candidato único, e o número de candidatos a pretender uma vaga na Câmara de Vereadores coincidiu com o número de vagas existentes. Com isso, Adeildo conseguiu formar uma chapa em que não houve suplentes.

Em Santana do Ipanema, cuja Prefeitura ocupou por três vezes, sua liderança esteve dividida com o deputado federal Geraldo Bulhões, pertencente ao grupo renovador da Câmara, praticamente o único político que resistiu na oposição a Adeildo. Mesmo assim, a convivência das duas alas só esteve afetada em algumas oportunidades.

Não apenas politicamente, sua vida foi atribulada. Em 1967, foi preso como um dos suspeitos de ter mandado matar o ex-deputado Robson Mendes. Nada ficou provado, mas nem por isso seu nome deixou de estar vinculado ao famoso “Sindicato do Crime de Alagoas”, que contava com membros das famílias Maia, Mendes, Cavalcante, Tenório, Medeiros, Wanderley, Boiadeiro, Dantas, Amaral, Melo, Albuquerque, Ribeiro, Barros, Gomes, Calheiros e outras.

Sua força política e magnetismo eleitoral nunca falharam. Habilidoso, sempre esteve politicamente bem por se adaptar facilmente aos esquemas políticos.

Para as próximas eleições, pretendia candidatar-se a deputado estadual para retornar à Assembleia. Parecia interessado em disputar o cargo, já que seu desejo era contribuir para a candidatura a deputado federal do governador Divaldo Suruagy, de quem se tornara aliado.

Desquitado da primeira esposa e separado da segunda união, Adeildo vivia ultimamente com uma terceira mulher, que se encontrava grávida. Deixa seis filhos, entre os quais o biólogo José Geraldo Marques, que havia sido nomeado pelo governador Divaldo Suruagy como secretário do Meio Ambiente de Alagoas.

Após um longo dia de viagem a Maceió, em 28 de janeiro de 1978, Adeildo Nepomuceno Marques saiu de Santana do Ipanema acompanhado do prefeito de Poço das Trincheiras, Florisval, o Vavá, e do funcionário da Câmara Municipal, J. Arlindo.

No retorno a Santana do Ipanema, por volta das 22 horas, Adeildo deixou J. Arlindo em sua residência e seguiu com Vavá. Ao chegarem à Fazenda Coqueiro Seco, Vavá deixou Adeildo e continuou viagem para Poço das Trincheiras com a Caravan da Prefeitura de Santana do Ipanema, enviando o veículo de volta na manhã seguinte por intermédio de um motorista.

Na fazenda, Adeildo foi atacado por dois homens, sendo atingido por dois tiros e sete facadas. Ainda com vida, foi socorrido por seu tio, Abdon Marques, após receber um telefonema de Dona Anete, esposa de Adeildo, pedindo que fosse imediatamente à propriedade. Ele foi levado ao Hospital Dr. Arsênio Moreira.

O médico Dr. Dalmário Gaia relatou que estava em casa quando recebeu um telefonema de Abílio Chagas, funcionário do hospital, informando que Adeildo havia sido assassinado e solicitando sua presença. Antes de sair, Dalmário ligou para seu irmão, o vereador Luciano Gaia, que havia discutido com Adeildo três dias antes, para acompanhá-lo ao hospital.

Ao chegarem, encontraram o vice-prefeito Genival Tenório, que pediu a Dalmário que comprasse o caixão de Adeildo em uma funerária pertencente ao empresário Enoque, localizada próxima ao hospital, na Avenida Prefeito Joaquim Ferreira.

Quando Dalmário e Luciano retornaram ao hospital, encontraram três tias de Adeildo próximas ao corpo. Nesse momento, uma gota de sangue caiu do cadáver e uma delas declarou: “O sangue dele está pedindo justiça. O assassino está aqui”, numa referência ao vereador Luciano Gaia.

Dalmário saiu com o irmão para a frente do hospital quando policiais chegaram informando que havia ordem para a prisão de Luciano Gaia. Os agentes pediram que o médico o apresentasse na delegacia. Muito respeitado na época, Dr. Dalmário conduziu o irmão até a Delegacia Municipal, onde Luciano ficou preso.

A empresária Maria das Virgens Virgínia, mãe do vereador Luciano Gaia, solicitou três vezes ao prefeito Adeildo Nepomuceno o envio de uma máquina para limpar a barragem de sua propriedade, já que o inverno se aproximava. O prefeito prometeu enviar o maquinário na semana seguinte em todas as ocasiões, mas não cumpriu a promessa após 60 dias de espera.

Sentindo-se desfeiteada, a empresária reuniu a família e proibiu que qualquer filho pedisse mais favores a Adeildo. Por ser aliado político e parente do prefeito, Luciano Gaia ficou profundamente irritado com o descaso com sua mãe, o que o levou a procurar Adeildo para confrontá-lo.

Preocupada com o gênio forte dos filhos, a empresária Maria das Virgens Virgínia reuniu a família e fez um apelo direto a Luciano: não queria brigas com o prefeito Adeildo Nepomuceno. Para ela, o descaso de 60 dias e as três promessas vazias sobre a máquina de limpar a barragem eram assunto encerrado. Dona Virgínia avisou que traria o maquinário de outro estado por conta própria e ordenou que ninguém nunca mais pedisse favores ao político.

Apesar do pedido insistente da mãe para deixar a situação para lá, o sangue de Luciano Gaia ferveu. Irritado com a desfeita à sua mãe e ao seu grupo político-familiar, o vereador ignorou os conselhos e saiu à procura do prefeito pela cidade, determinado a confrontá-lo — uma decisão que desencadearia a fatídica discussão na madeireira do bairro Domingos Acácio.

Os boatos sobre a briga na madeireira tomaram as ruas da cidade como um rastro de pólvora, apontando o vereador Luciano Gaia como o principal suspeito devido ao juramento de que os dias do prefeito “estavam contados”.

O falatório da população, que testemunhou ou ouviu relatos da cerrada discussão na quarta-feira no bairro Domingos Acácio, guiou os primeiros passos da polícia. O “juramento” feito por Luciano tornou-se o principal elo de ligação que as autoridades precisavam para justificar uma ação rápida contra o parlamentar.

A acusação a Luciano Gaia Nepomuceno partiu de Nilza Marques Nepomuceno, irmã de Adeildo. Ela chegou a pedir ao secretário de Segurança, Coronel Amaral de Azevedo, que o prendesse.

Na Delegacia de Santana do Ipanema, o vereador Luciano Gaia manteve a postura de que tudo não passava de uma trágica coincidência de datas, alegando que sua fala na madeireira foi apenas um desabafo fruto da irritação com a desfeita à sua mãe, e não um anúncio de morte.

Luciano explicou que “os dias contados” se referiam ao fim da carreira pública do prefeito Adeildo, que planejava disputar uma vaga de deputado estadual nas eleições seguintes e, segundo o vereador, seria rejeitado nas urnas pela população de Santana do Ipanema.

O desespero de uma mãe diante da violência do Estado marcou um dos capítulos mais tensos da investigação sobre o assassinato de Adeildo Nepomuceno. Ao saber que seu filho, o vereador Luciano Gaia, estava sendo torturado na delegacia, ela confrontou diretamente o secretário e delegado especial, Rubens Quintela.

Em um apelo que misturava indignação e cobrança, ela relembrou a Quintela a proximidade histórica que ele mantinha com sua família, ressaltando que o delegado conhecia o caráter e a personalidade de seus filhos. Com firmeza, afirmou que nenhum deles tinha capacidade para mandar matar quem quer que seja, classificando o episódio como uma humilhação inaceitável e exigindo a soltura imediata do vereador.

Essa intervenção dramática ocorreu apenas sete dias após o avanço de outras linhas de investigação, que incluíam a prisão de José Medeiros — indivíduo que tivera uma discussão prévia com Adeildo — e a captura de outros dois homens acusados de executar o crime.

O deputado federal pelo MDB, José Costa, disse que não vê sentido nas prisões que vêm sendo feitas para investigação do crime, como, por exemplo, a detenção do fazendeiro Hostílio Januário de Melo, cunhado do pistoleiro Valderedo Ferreira, porque, segundo ele, entre essas pessoas muitas possuíam vínculos de amizade pessoal com Adeildo Nepomuceno.

Veja o que disse o fazendeiro Antônio Pereira da Silva, conhecido por “Tonho Baixinho”:

“Sofri as piores sevícias para indicar a participação de José Medeiros, ex-prefeito de Poço das Trincheiras, no assassinato do ex-prefeito de Santana do Ipanema, Adeildo Nepomuceno. Fui até colocado no pau de arara”, mostrando as marcas de tortura quando foi apresentado à imprensa por seu advogado, deputado federal José Costa.

Estranhando a versão da Secretaria de Segurança sobre seu envolvimento nos homicídios, entre eles o de Adeildo Nepomuceno, a mando do político José Medeiros, o fazendeiro confessou que, de fato, andara dando umas facadas em Zenildo Wanderley. “Mas foi apenas isso, e mesmo assim em legítima defesa e com receio de morrer.”

Tonho Baixinho disse ainda que, quando foi preso pela volante do delegado Rubens Quintela, “botaram um pedaço de ferro entre as minhas pernas, e fiquei dependurado de cabeça para baixo. Depois queimaram meu peito com cigarros, alegando que só assim Tonho poderia descobrir tudo”. Isso para que ele confessasse três crimes que eles diziam que Tonho teria cometido.

Contou ainda à imprensa que, depois dos espancamentos, passou a noite inteira sem dormir, com as mãos inchadas e o corpo todo quebrado do “cacete”.

“Eles pintaram a desgraça comigo. O cabo Dorgival, inclusive, me afirmou: ‘Se você não contar dos crimes a mando do seu José Medeiros, vai morrer’.”

Foi o que disse Tonho Baixinho à imprensa.

Pessoal, no próximo episódio vou falar sobre a prisão de José Medeiros, o seu julgamento, a sua morte, a revolta de Jildo Rodrigues e a prisão de dois homens de Poço das Trincheiras que não tinham nada a ver com o crime, mas que cumpriram anos de prisão em Maceió.

Não deixem de curtir e comentar. Em breve, as mortes dos prefeitos e deputados de Palmeira dos Índios.

Um abraço do nosso editor Miguel Rian, do jornalista Roosevelt Valões e do seu amigo Comendador Fernando Valões.

Até o próximo podcast.

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Redação com Fernando Valões