“Preciso matar esse cara”: Documentos da PF que se tornaram públicos revelam que Vorcaro apresentava mania de perseguição

“Preciso matar esse cara”. A frase, disparada pelo empresário Daniel Vorcaro em julho de 2025 após descobrir que sua filha adolescente, Stella, havia sido filmada e o vídeo espalhado na internet, resume o nível de descontrole e a espiral de paranoia que tomou conta dos bastidores do banqueiro. O episódio consta em documentos de um inquérito sigiloso da Polícia Federal que vieram a público na madrugada desta sexta-feira (11) e expõem detalhes até então inéditos sobre uma estrutura clandestina de monitoramento, perseguição e intimidação.

Enquanto o noticiário tem se concentrado nos aspectos corporativos envolvendo o Banco Master, a análise telemática do iPhone 17 Pro de Vorcaro, apreendido durante a Operação Compliance Zero, revela como operava o braço armado e digital de sua rede de proteção particular.

Intimidação

O caso envolvendo a filha do empresário ilustra o grau de obsessão e o modus operandi da estrutura montada por Vorcaro. Ao saber das imagens gravadas no estabelecimento Amor St Tropez, na França, ele exigiu que seus operadores localizassem imediatamente o autor da filmagem, identificado como Sean Monteine.

A ordem direta incluía um artifício ilegal de que seus subordinados fizessem ligações se passando por agentes da Polícia Federal do Brasil para extrair os dados e os nomes de todas as pessoas que estavam à mesa do alvo. Os diálogos mostram que o grupo acionou o ex-policial federal Marilson Roseno da Silva, apontado como líder de um grupo de apoio apelidado de “A turma”, para constranger e rastrear Monteine.

Propinas milionárias

O material recuperado pela PF detalha uma engrenagem financeira robusta mantida para blindar Vorcaro a qualquer custo. O esquema era alimentado por repasses mensais de R$ 1 milhão geridos por operadores financeiros próximos ao empresário, como Fabiano Campos Zettel e Ana Cláudia Queiroz de Paiva, direcionados à empresa King Participações Imobiliárias, controlada por Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão (conhecido nos chats como “Sicário”).

Desse total, cerca de R$ 400 mil mensais irrigavam diretamente “A turma”, um grupo de seis integrantes com forte atuação de policiais federais voltado para:

  • Vaza-sigilos: Varreduras em inquéritos sigilosos e processos judiciais para antecipar movimentos da Justiça e da polícia.
  • Consultas restritas: Varreduras em sistemas oficiais e corporativos para mapear dados de CPFs, endereços e CNPJs de desafetos.
  • Intimidação direta: Abordagens a jornalistas, criadores de conteúdo e ex-funcionários (como o capitão de seu barco, monitorado e ameaçado após desentendimentos trabalhistas).

A investigação aponta que a mania de perseguição de Vorcaro beirava o absurdo. Em trechos bizarros do inquérito, o empresário mobilizou sua estrutura de segurança e agentes públicos para caçar o operador de um drone que sobrevoava sua mansão em um condomínio de luxo em Nova Lima (MG). A suposta ameaça de segurança nacional acabou se revelando ser apenas um vizinho tentando localizar um cachorro perdido.