Vivi para contar: ‘Seguimos lutando e agradecendo a Deus pelo milagre’, diz mãe de bebê que ‘renasceu’ após ser declarado morto

Letícia Cristina da Cruz Souza relata a angústia e a emoção ao saber que filho estava vivo

“A gestação foi tranquila, até o dia em que um exame indicou a complicação genética dele (o irmão, Nicolas, de 15 anos, tinha a mesma malformação ao nascer, mas menos severa), e precisei ficar internada. Ainda na barriga, os batimentos cardíacos dele e os meus aceleravam e diminuíam. Minha família e meus amigos fizeram um culto de ação de graças, e o Noah nasceu uma semana depois, dia 15 de junho, em uma cesárea de emergência, prematuro de 35 semanas, quando eu entrava no oitavo mês de gravidez.

Deu tudo certo no parto, mas, enquanto os médicos concluíam os procedimentos, Noah foi ficando cansado, e o levaram para a UTI por conta da fenda palatina (malformação em que o céu da boca não se fecha), que dificultava a respiração. Ele ficou internado na Santa Casa de Rio Claro. Eu e meu marido nos revezávamos no horário de visita, pois não podia ficar acompanhante.

Durante um mês, a gente sabia que, antes de ir para casa, Noah teria que fazer um procedimento para desgrudar a língua do céu da boca, no hospital da USP conhecido como Centrinho, em Bauru (a duas horas e 20 minutos de Rio Claro, em SP, onde a família vive).

No dia 15 de julho, meu filho completou 1 mês no hospital, e eu e meu marido fomos visitá-lo, brincando sobre quem o pegaria no colo primeiro, pois finalmente seríamos autorizados pelos médicos. Mas, quando chegamos, a médica da UTI veio conversar comigo e com meu marido. Sentamos ao lado do leito, e ela nos contou que ele havia tido uma parada cardiorrespiratória e ficado oito minutos desacordado, e que precisaram intubá-lo.

Enquanto ela nos contava, ele teve outra parada. E foi constatado o óbito. Nós estávamos com o Noah, vimos a equipe médica tentar a reanimação por 45 minutos, mas não tinha jeito. Eu não consegui ficar olhando; mas meu marido ficou uns 40 minutos com o corpo. O rosto dele já estava roxinho e a pele, rígida.

O óbito foi declarado às 17h12. Liguei para a minha irmã e fizemos os procedimentos na funerária. Por conta da internação, meu filho nunca vestiu uma roupa. No dia em que levamos a roupinha para a funerária, a madrinha dele falou: “Comprei essa roupa para ele ir para casa, não para essa situação”. Fiquei baqueada.

Fomos para casa, e algumas horas depois o hospital ligou insistindo para que voltássemos porque a médica queria falar com a gente novamente. Quando chegamos, uma enfermeira nos levou para o mesmo lugar na UTI onde nos haviam comunicado o óbito, e a médica, então, nos explicou que não sabiam o que havia acontecido, mas que o Noah estava vivo.