ÁUDIOS: Investigados na Carbono Oculto dizem que Ciro Nogueira é ‘amigo’ de Beto Louco Investigados dizem no Whatsapp

Investigados dizem no Whatsapp que senador do Piauí iria facilitar negócios entre Beto Louco e o grupo.

Empresários investigados pela Polícia Civil do Piauí na Operação Carbono Oculto 86 afirmaram, em mensagens de áudio às quais o ICL Notícias teve acesso, que Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como Beto Louco, é “muito amigo” do senador Ciro Nogueira (PP-PI). A relação também foi mencionada nos depoimentos prestados pelos investigados ao longo da apuração.

Beto Louco e seu sócio, Mohamed Mourad, o Primo, são acusados de liderar um esquema de lavagem de dinheiro ligado à facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), com atuação no setor de postos de combustíveis. Ambos estão foragidos desde agosto do ano passado.

São eles também os donos da aeronave pilotada por Mauro Mattosinho, que revelou, em entrevista ao ICL Notícias em setembro do ano passado, ter transportado uma sacola de papelão que aparentava conter dinheiro vivo. Segundo o piloto, o voo ocorreu dia 6 de agosto de 2024, mesma data em que Beto Louco comentou com outros passageiros que teria um encontro com o senador Ciro Nogueira. Mattosinho também prestou depoimento à Polícia Federal (PF).

Antes da publicação da primeira matéria do ICL Notícias sobre o assunto, Ciro Nogueira negou ter “tido proximidade de qualquer espécie” com Beto Louco.

A Operação Carbono Oculto 86 (referência ao DDD do Piauí) é um desdobramento da operação homônima com foco principal em São Paulo. O inquérito foi trancado no último dia 2 de abril por decisão do juiz Valdemir Ferreira Santos, da Central de Inquéritos do Tribunal de Justiça do Piauí. O Ministério Público piauiense (MP-PI) recorreu da decisão. A promotoria havia denunciado os empresários Haran Sampaio, Danillo Coelho de Sousa e Victor Linhares de Paiva por adulteração de combustíveis, ocultação de patrimônio, lavagem de dinheiro e associação com Beto Louco e Primo.

Ciro Nogueira conversa em aeroporto com empresários investigados na Carbono Oculto 86
À esquerda, Danilo Coelho de Souza. Á direita, Haran Santhiago Girão Sampaio. Ciro Nogueira ao centro

Ciro Nogueira não é formalmente investigado no caso. No entanto, após a menção ao seu nome e ao do deputado federal Júlio Arcoverde (PP-PI) ao longo da apuração, a Polícia Civil solicitou o envio do caso ao Supremo Tribunal Federal (STF), em razão do foro privilegiado dos parlamentares.

De acordo com os relatos reunidos no inquérito, a aproximação entre os empresários Haran Sampaio e Danillo de Sousa — antigos proprietários da rede de postos de combustíveis HD – e o grupo ligado a Beto Louco e Primo – donos das empresas Copape, produtora de gasolina, e Aster, uma distribuidora –  teve início em outubro de 2023. A dupla baseada em São Paulo já mantinha contato prévio com o senador Ciro Nogueira, mas buscava estreitar essa relação.

O movimento teria ocorrido em meio à disputa por espaço no mercado de combustível com o dono da Refit (antiga Refinaria Manguinhos), Ricardo Magro. Apontado como o maior sonegador do país, Magro é amigo de longa data de Ciro Nogueira, conforme mencionou em entrevista à Folha de S. Paulo.

Mensagens extraídas dos celulares de Haran Sampaio e Danillo de Sousa reforçam que o nome do senador – a quem se referiam como “Sena” – era recorrente nas tratativas. Em um dos áudios que estava nos celulares apreendidos, Danillo relata conversas envolvendo o grupo de Beto Louco e Primo e sugere o uso da proximidade com Ciro Nogueira como fator de influência para viabilizar os negócios.

“Se o ‘Sena’ desse uma ligada aí, Vitinho, pra esse Beto que é o que a gente vai encontrar amanhã, aí era top, viu. Porque ele disse que esse cara aí é muito amigo do Ciro, e é o cara que concorre com o Ricardo [Ricardo Magro]. O Ricardo é mais forte, pelo que eu entendi pela conversa, o Ricardo lá de Miami é mais forte que esse Beto, mas esse Beto era o cara que disputava com ele quem era mais forte, sabe?”, disse Danillo em mensagem de áudio enviada num grupo com Haran Sampaio e Victor Linhares, a quem chama de “Vitinho”.

Em outra mensagem, Haran contou para o sócio Daniel: “Rapaz, eu conversei muito com o Vitinho […] e ele disse: vamos botar o negócio pra frente que o Ciro já falou que vai ajudar a gente”. No mesmo áudio, o empresário contou que havia incluído o senador Ciro Nogueira num grupo de Whatsapp. O grupo se chamava Ciro Vitor Haran Danilo, em referência ao nome dos integrantes.

Conforme revelou a Revista Piauí, o senador interagiu no grupo, inclusive convidando os empresários para um encontro em sua casa, em novembro de 2023. Semanas depois, em meio às negociações para a venda de parte da rede de postos HD ao grupo de Beto Louco e Primo, mensagens indicam que um aval de Ciro Nogueira foi dado — e o negócio acabou fechado ainda em dezembro daquele ano.

Negócio começou numa festa em Trancoso

A relação entre os empresários do setor de combustíveis do Piauí com o grupo de Beto Louco e Primo, segundo depoimentos dos investigados, teria começado em uma festa em um bar na beira da praia em Trancoso (BA), em outubro de 2023. Na ocasião, Haran, Danillo e Victor teriam sido apresentados a um intermediário ligado ao grupo paulista. De acordo com os relatos, o encontro teve clima informal. Em determinado momento, o interlocutor teria mencionado a proximidade com o senador Ciro Nogueira: “a gente é amigo do senador”. “É meu pai”, teria respondido Victor Linhares.

Homem de confiança de Ciro Nogueira, Victor Linhares trabalhou no gabinete do parlamentar entre abril de 2018 e março de 2019, e também na liderança do Partido Progressista (PP) no Senado em 2020. O político é padrinho de uma filha de Linhares, e há ainda diversas fotos publicadas em redes sociais que indicam a proximidade entre os dois.

O encontro em Trancoso foi mencionado em um áudio enviado por Danillo a Haran. Na mesma mensagem, Danillo menciona uma conversa que teve com o interlocutor da dupla baseada em São Paulo e volta a falar sobre a amizade entre Ciro Nogueira e Beto Louco.

“Era melhor vir aqui porque não adianta ser em Salvador, porque não vai estar a pessoa que deveria estar, que eu acho que é esse Beto, entendeu, que é o pica lá, pelo que eu já sondei, né, que é o amigo do Ciro. Aí ele falou assim: ‘rapaz, eu até falei de vocês aqui pro meu sócio e ele ficou interessado’.

Na sequência, Danillo reforça a expectativa de que uma eventual aproximação política pudesse acelerar os negócios. “Já adiantei sobre vocês, ele se interessou, e tem amigos em comum… aí, pô, o Ciro… você já pulou 90% das etapas”, disse, referindo-se ao que teria ouvido do interlocutor. “Aí tu imagina o Ciro dando uma ligadinha pra ele hoje, falando que a gente se conheceu lá, falando bem da gente, né? Aí, meu patrão, a gente já chega lá com as portas abertas. A gente pede pro Sena fazer essa ligação aí.”

Empresa de Ciro Nogueira e seu ex-assessor receberam dinheiro de empresários

Dois meses após o encontro narrado pelos empresários, em 20 de dezembro de 2023, Victor Linhares recebeu a quantia de R$ 230 mil de Haran Sampaio. O fato foi revelado pelo ICL Notícias, que teve acesso exclusivo a um documento que comprova a transação.

A movimentação financeira coincide com o período em que Haran Sampaio e Danilo de Sousa venderam os postos de combustíveis da rede HD para a Pima Energia Participações Ltda, aberta por Beto Louco e Primo apenas seis dias antes de fazer negócio com o grupo do Piauí.

A suspeita dos investigadores é a de que Victor Linhares Paiva recebeu a quantia por intermediar a negociação.

Reportagem do ICL Notícias também mostrou que o posto de combustível HD Petróleo Uruguai, de Haran e Danilo, já dividiu endereço com uma firma do irmão de Ciro Nogueira e recebeu recursos públicos da cota parlamentar do político.

Além disso, o ICL Notícias revelou que a empresa do senador, a Ciro Nogueira Agropecuária Imóveis, recebeu R$ 63,9 mil do Posto Pima Energia. Os repasses aparecem em um Relatório de Inteligência Financeira (RIF) produzido pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Segundo o relatório, foram enviados R$ 47,9 mil em 2 de maio de 2025 e R$ 15,9 mil em 17 de abril do mesmo ano.

As transferências foram feitas por meio da conta do posto na fintech BK Instituição de Pagamento, conhecida como BK Bank. A instituição financeira foi apontada como peça-chave no esquema investigado pela Carbono Oculto em São Paulo. Ainda de acordo com o relatório do Coaf, a empresa de Ciro transferiu 25,1 mil reais para a HD Petróleo Uruguai.

Procurado por meio de sua assessoria de imprensa, o senador Ciro Nogueira não respondeu aos questionamentos do ICL Notícias. Os advogados de Beto Louco e Primo não quiseram se manifestar.

Foragidos da Justiça brasileira desde a deflagração da Operação Carbono Oculto em agosto do ano passado e provavelmente escondidos na Líbia, Beto Louco e Primo tentam firmar um acordo de delação premiada. Uma proposta foi enviada ao MP-SP (Ministério Público de São Paulo) nesta semana e aguarda parecer do procurador-geral de justiça, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa.

Juiz tranca investigação; MP-PI contesta

Os relatórios do Coaf foram usados pelas defesas dos investigados Haran Santiago e Danilo de Sousa para pedir o trancamento da investigação policial, sob a alegação de irregularidades no compartilhamento dos dados. A Justiça do Piauí acolheu os argumentos e determinou o trancamento do inquérito, além de anular as informações obtidas junto ao órgão. O trancamento do inquérito foi revelado pelo portal Uol. O ICL Notícias também teve acesso à decisão.

Na decisão, o juiz Valdemir Ferreira Santos entendeu que houve envio indevido de dados financeiros sem autorização judicial prévia e sem base investigativa suficiente. Também considerou que os relatórios teriam sido solicitados no início da apuração, sem indícios prévios que justificassem a medida.

Segundo a defesa, o inquérito foi instaurado em 10 de setembro do ano passado e, cinco dias depois, a polícia já havia solicitado relatórios de inteligência financeira (RIFs) ao Coaf. Para o magistrado, isso indica que a investigação “não se desenvolveu a partir de elementos previamente constituídos”.

O juiz também citou decisão do ministro do STF Alexandre de Moraes que restringiu o compartilhamento de dados do Coaf com Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) para embasar o trancamento.

Em nota publicada nesta quarta-feira (15), o Ministério Público do Estado do Piauí (MP-PI) contestou a decisão. O órgão afirma que o juiz não tinha competência para determinar o trancamento naquele momento, já que haveria denúncia apresentada em procedimento relacionado, o que transferiria o caso para outra instância. Ou seja, para o STF.

A promotoria sustenta ainda que não houve ilegalidade na obtenção dos relatórios, que teriam sido utilizados de forma complementar a indícios já existentes, e afirma que a investigação se baseia em um conjunto consistente de provas independentes. O MP-PI já recorreu e pede a reversão da decisão. A expectativa é de que o caso siga para a Suprema Corte.

Além de Ciro Nogueira, a Polícia Civil encontrou nos celulares dos investigados mensagens que sugerem tratativas com o deputado federal Júlio Arcoverde, referente a emendas parlamentares, conforme também foi revelado pela Revista Piauí: “Esse negócio que a gente fez de compromisso com o Júlio aí acabou. Não tem mais. […] Pode ser uma emenda de R$ 1 trilhão. Não pago nada mais. Não faço mais nenhum compromisso daqui pra frente. Zero”, disse Danillo em um dos áudios enviados a Haran.

Por meio de nota, o deputado federal Júlio Arcoverde informou desconhecer “quaisquer menções relacionadas ao seu nome no contexto citado”. Ele acrescentou que não é investigado no âmbito da operação, “nem em qualquer outro inquérito”. “Ressalta-se, ainda, que o próprio Tribunal de Justiça do Piauí já determinou o arquivamento do desdobramento citado, afastando questionamentos relacionados ao caso. O parlamentar reitera que não possui qualquer envolvimento com ações ilícitas”, acrescentou na nota.

Procurado por telefone, Danillo de Souza não respondeu. Já Haran Sampaio afirmou desconhecer a existência dos áudios revelados nesta reportagem e enviou uma nota assinada pelos seus advogados em que reiteram os argumentos usados no pedido de trancamento da investigação.

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