Mensagens que alcançaram e assustaram milhões de brasileiros estavam direcionadas a seis capitais, três estados e ao Distrito Federal
Duas contas vinculadas à Defesa Civil do Pará foram usadas para disparar dez alertas públicos falsos entre a noite de sexta-feira e a madrugada de sábado. A informação consta de um documento do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional enviado à Polícia Federal e obtido pelo GLOBO. As mensagens que alcançaram e assustaram milhões de brasileiros por meio de alarmes nos celulares tiveram classificação de nível extremo, o grau mais alto do sistema, e chegaram — ou estavam direcionadas — a seis capitais, três estados e ao Distrito Federal.
Segundo o material recebido pelos investigadores, houve “acesso indevido” à Interface de Divulgação de Alertas Públicos, a IDAP, plataforma usada para disseminar avisos oficiais à população em situações de risco.
Os alertas falsos foram registrados em categorias como alagamentos, tornados e deslizamentos. As mensagens acabaram direcionadas às cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte, Curitiba e Rio Branco, além de outros locais dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Mato Grosso do Sul e do Distrito Federal.
A maior parte das mensagens trazia a palavra “misantropia” ou variações. A palavra é usada para definir aversão, desprezo ou até mesmo ódio à Humanidade.
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Impacto à segurança
Além da análise dos disparos, a pasta reconheceu o potencial impacto à segurança pública e à confiança nos sistemas oficiais de alerta causado pelos falsos avisos. A gravidade do caso foi destacada pelo secretário-executivo da pasta, Valder de Moura. Foi solicitada à PF a apuração de suposto crime cibernético e identificação dos responsáveis.
A corporação atualmente conduz uma apuração preliminar, e o ministério também quer que os investigadores compartilhem seus achados com a pasta para embasar a adoção de medidas adicionais de segurança.
Os envios ocorreram sem solicitação ou validação de autoridades reconhecidas de proteção e defesa civil, o que indica que se tratou de um ataque cibernético, segundo investigadores que acompanham o caso.
Os primeiros alertas foram registrados às 23h41 e 23h45 do dia 19 de junho. Após esses envios, a equipe técnica do ministério bloqueou a conta usada e vinculada a um agente de proteção e defesa civil do Pará. A medida, no entanto, não impediu uma nova sequência de disparos.
Na madrugada do dia seguinte, entre 1h20 e 1h23, outra credencial da mesma instituição foi utilizada para novos alarmes.
“Um aspecto que agrava a ocorrência é que os dois usuários identificados nos registros possuem perfil estadual vinculado ao Estado do Pará, mas os alertas suspeitos foram direcionados para localidades e unidades federativas fora de sua área de autorização”, observa o documento do ministério. “Assim, além do possível uso indevido de credenciais, há indício de que o agente conseguiu operar a plataforma sem a devida restrição territorial, emitindo ou tentando emitir alertas para áreas nas quais os usuários não deveriam possuir permissão de envio.”
Ao todo, foram identificados dez envios indevidos: nove pelo DCA, o Defesa Civil Alerta, sistema que envia alertas pelas antenas de telefonia a todos os celulares de uma área, e um por mensagem de texto.
Criado para ampliar a capacidade de resposta em situações de emergência, o sistema utiliza a tecnologia Cell Broadcast para enviar mensagens diretamente aos celulares localizados em áreas de risco, sem necessidade de cadastro prévio. As notificações são acompanhadas de aviso sonoro e têm como finalidade orientar a população diante de eventos que possam representar perigo imediato.
Todos os alertas foram cadastrados no nível “extremo”, classificação reservada a situações de maior gravidade, em que a população deve adotar medidas imediatas de proteção. No caso investigado, no entanto, as mensagens não correspondiam a nenhum desastre real nem seguiam o padrão técnico da Defesa Civil.
‘Alienígena’
O conteúdo dos alertas também chamou a atenção dos técnicos. Em Belo Horizonte, o único comunicado enviado por mensagem de texto mencionava um suposto “ataque alienígena” e dizia: “humanos, chegamos”.
Nos demais disparos, apareciam expressões sem relação com ocorrências de defesa civil, como “misantropia”, “misantropo” e variações escritas com número no lugar de letra. Segundo o dicionário Michaelis, é a qualidade de quem demonstra rejeição ou desconfiança em relação à natureza humana. O termo também pode ser empregado para descrever pessoas que evitam o convívio social
“As mensagens registradas não apresentam conteúdo técnico, institucional ou compatível com os protocolos de Proteção e Defesa Civil. Ao contrário, contêm expressões ofensivas, incoerentes e sem relação com eventos reais, incluindo termos como ‘misantropia’, ‘misantropo’ e menção a ‘ataque alienígena’”, afirma o documento do ministério.
Depois dos primeiros registros dos alertas, a equipe responsável pela plataforma bloqueou as permissões usadas nos disparos e restringiu termos considerados indevidos no conteúdo das mensagens. O caso também foi comunicado à Diretoria de Tecnologia da Informação do ministério, que passou a discutir medidas de contenção. A Polícia Federal foi acionada e abriu uma investigação preliminar para apurar os fatos.




