Em camisetas contra Lula e o STF, ex-juiz e ex-procurador admitem ação conjunta entre quem acusava e quem julgava na Lava Jato
Osenador Sergio Moro (PL-PR) e o ex-deputado Deltan Dallagnol publicaram uma foto que talvez revele mais sobre a Operação Lava Jato do que os dois pretendiam.
Na imagem divulgada no sábado (1º), Moro veste uma camiseta com a frase “Curitiba prendeu, Brasília soltou”. Dallagnol aparece com a inscrição “Eu prendi o Lula, o STF soltou” e uma reprodução do PowerPoint usado pela força-tarefa para acusar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A publicação pretendia atacar o Supremo Tribunal Federal (STF) e transformar a prisão de Lula em troféu político. Mas o uso do plural acabou escancarando justamente o vício que marcou a Lava Jato: a atuação conjunta entre o procurador responsável pela acusação e o juiz que deveria julgar o caso com independência e imparcialidade.
O “nós” que entrega a Lava Jato
Em um processo penal regular, não pode existir um “nós” formado pelo acusador e pelo magistrado. O Ministério Público denuncia e sustenta a acusação; a defesa contesta; e o juiz, equidistante das partes, analisa as provas e toma a decisão.
Ao declarar “nós prendemos Lula”, Dallagnol apresenta a prisão como obra comum da acusação e de Moro. Os dois aparecem não como agentes com funções separadas, mas como integrantes de uma mesma equipe, unidos por um objetivo compartilhado.
A foto funciona como uma admissão pública da parceria: juiz e procurador reivindicam juntos a responsabilidade por colocar Lula na prisão.
Foi justamente a falta de imparcialidade de Moro que levou o STF a declará-lo suspeito no processo do “triplex do Guarujá”. O Supremo também anulou as condenações de Lula ao reconhecer que a 13ª Vara Federal de Curitiba não tinha competência para julgar os casos.
Vaza Jato já havia revelado a parceria
As mensagens divulgadas pela série jornalística Vaza Jato, do The Intercept Brasil, mostraram que Moro mantinha contatos com Dallagnol fora dos canais formais, sugeria medidas, discutia estratégias e cobrava providências da força-tarefa.
Os diálogos reforçaram a acusação de que o então juiz não atuava como um árbitro independente, mas colaborava com os procuradores responsáveis por acusar Lula. Agora, a relação antes exposta pelas mensagens privadas aparece estampada publicamente nas camisetas.
A condenação conduzida por Moro impediu Lula de disputar a eleição presidencial de 2018, vencida por Jair Bolsonaro. Pouco depois do pleito, Moro deixou a magistratura para assumir o Ministério da Justiça no governo do principal beneficiário eleitoral da ausência de Lula.
Dallagnol, por sua vez, transformou em estampa o PowerPoint apresentado em 2016, no qual colocou Lula no centro de um suposto esquema criminoso. O ex-procurador foi condenado pelo Superior Tribunal de Justiça a indenizar o petista por danos morais e pagou R$ 146,8 mil, com juros e correção, em razão daquela apresentação.
Confissão do conluio
A contradição foi percebida imediatamente nas redes sociais. O humorista Tiago Santineli comentou: “legal ele confessar que a acusação trabalhou junto com o juíz”.
O antropólogo Orlando Calheiros também reagiu: “Tá confessando o conluio? Procure um advogado que entenda de direito para te explicar o motivo disso ser crime”.
A publicação ocorre em meio à tentativa de Moro e Dallagnol de reativar politicamente a Lava Jato nas eleições de 2026. Moro foi oficializado como candidato ao governo do Paraná, enquanto Dallagnol busca voltar a um cargo eletivo após ter o registro de deputado federal cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
As camisetas tentam resumir toda a história na ideia de que Curitiba “prendeu” e Brasília simplesmente “soltou”. Ignoram que o STF reconheceu a incompetência da vara de Curitiba e a parcialidade de Moro.
Na tentativa de atacar o Supremo, Moro e Dallagnol acabaram resumindo em uma única palavra o problema central da Lava Jato: “nós”.




