Embora a atual reforma esteja sendo conduzida pelo governo do chanceler Friedrich Merz, a mudança política que tornou possível essa nova abordagem vem sendo construída há anos
Uma das maiores reformas do sistema previdenciário da Alemanha desde que o chanceler Otto von Bismarck o criou, no fim do século XIX, está prestes a entregar aos gestores de fundos da atualidade um novo império de recursos para administrar.
Depois de muitos anos aceitando retornos modestos em troca da garantia do capital investido, o país está prestes a se afastar de títulos conservadores e apólices de seguros e também a subsidiar uma gama mais ampla de investimentos, de fundos que acompanham índices a crédito privado.
Em um sistema de três pilares, o patrimônio destinado exclusivamente à previdência privada deverá dobrar, chegando a cerca de € 500 bilhões ( cerca de US$ 577,8 bilhões) na próxima década, segundo o BVI, associação que representa o setor de fundos do país.
Gestores como a DWS Group, do Deutsche Bank, a JPMorgan Asset Management e o Vanguard Group correm para preparar novos produtos até 1º de janeiro de 2027, quando o novo sistema entrará em vigor.
Eles já contam com um cenário favorável: o crescente interesse dos investidores de varejo ajudou o setor de fundos alemão a superar € 5 trilhões (US$ 5,77 trilhões) em ativos sob gestão neste ano.
Embora a atual reforma esteja sendo conduzida pelo governo do chanceler Friedrich Merz, a mudança política que tornou possível essa nova abordagem vem sendo construída há anos e ganhou força durante o governo anterior, em 2023.
Ela sinaliza que a maior economia da Europa reconheceu que a preparação para a velhice mudou fundamentalmente — e que os alemães finalmente estão aceitando assumir mais riscos em busca de uma aposentadoria confortável.
— A reforma previdenciária vai mudar o mundo da poupança para a aposentadoria na Alemanha, com uma mudança dos depósitos bancários para a acumulação de patrimônio nos mercados de capitais — afirmou Bjoern Deyer, responsável pela área de previdência da DWS. — Isso está se espalhando por todo o setor de gestão de ativos do país.
A previdência se tornou o maior projeto individual da DWS, que administra cerca de € 1,1 trilhão (US$ 1,27 trilhão). A empresa destinou uma “quantidade significativa” de recursos e ampliou a equipe dedicada à previdência, afirmou Deyer em entrevista concedida em Frankfurt. Segundo ele, a DWS iniciou uma campanha de conscientização voltada aos clientes de varejo e promoveu treinamentos durante o verão sobre os novos produtos para seus parceiros de vendas.
Isso porque milhões de cidadãos alemães podem estar prestes a dar seus primeiros passos como investidores, impulsionados pela percepção de que a matemática previdenciária na qual seus pais e avós confiaram provavelmente não funcionará tão bem para eles.
Consultores alemães de aposentadoria frequentemente recomendam que os aposentados garantam uma renda equivalente a 80% de seu último salário líquido para manter o padrão de vida. Para muitas pessoas, porém, o valor projetado está bem abaixo desse nível.
A “taxa líquida de reposição” — ou seja, quanto da renda recebida antes da aposentadoria uma pessoa pode esperar manter — deverá ser de 53% para trabalhadores com renda média que estejam iniciando sua carreira nesta década e que dependam da previdência obrigatória, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Os cálculos da OCDE mostram que, quando são incluídos os sistemas de previdência privada voluntária, esse percentual sobe para cerca de 68%.
— Há trilhões de euros parados nas contas bancárias dos poupadores, e esse dinheiro precisa se tornar mais produtivo para aumentar a resiliência financeira dos cidadãos e fortalecer a economia europeia — afirmou Ann Prendergast, chefe da State Street Investment Management para Europa, Oriente Médio e África.
Reformas em andamento
Há várias reformas em andamento. O sistema previdenciário público de repartição, que já consome cerca de um quarto do orçamento federal, deve direcionar mais de € 30 bilhões (US$ 34,6 bilhões) para os mercados financeiros. O governo também quer ampliar a adesão aos planos de previdência ocupacional, que recebem contribuições adicionais dos empregadores.
Mas, por enquanto, o setor financeiro está concentrado em uma reforma que permitirá que recursos privados sejam aplicados em contas de investimento subsidiadas pelo governo. O novo modelo substituirá o sistema Riester, criado no início dos anos 2000, que oferecia garantia do capital investido, mas proporcionava retornos baixos.
O novo sistema leva o país um passo mais próximo dos Estados Unidos, onde as pessoas investem em títulos e fundos por meio das Individual Retirement Accounts (IRAs), contas individuais de aposentadoria que oferecem vantagens tributárias.
O novo modelo alemão deve beneficiar amplamente os fundos negociados em bolsa (ETFs) de baixo custo, porque a chamada conta padrão terá as taxas limitadas a 1%. Os investidores poderão pagar mais para ter acesso a outros produtos, como os fundos europeus de investimento de longo prazo (ELTIFs), veículos voltados ao público de varejo para investimentos em private equity, crédito privado e infraestrutura.
Dependendo da adesão ao novo sistema, a S&P Global Ratings estima que a reforma poderá liberar entre € 26 bilhões (US$ 30 bilhões) e € 56 bilhões (US$ 64,7 bilhões) em novos aportes anuais para a previdência privada alemã, após um período de implementação que poderá durar até dois anos. Isso oferece ao setor de gestão de fundos uma espécie de roteiro para o crescimento dos aportes ao longo da próxima década, desde que as instituições consigam conquistar clientes desde o início.
— Uma vez que você entra, pode ficar relutante em mudar — afirmou Benjamin Heinrich, analista da S&P, em entrevista. — Acredito que a fidelidade dos clientes alemães esteja sendo subestimada. Alguns bancos veem isso como uma oportunidade única na vida. Uma grande parte da participação de mercado será definida no próximo ano.
Funcionários de vendas de gestoras de ativos estão tentando incluir seus fundos nas novas contas, segundo vários executivos do setor. Eles destacam as baixas taxas dos ETFs e tentam convencer os consultores sobre a superioridade de seus fundos de mercados privados.
— O relógio está correndo para aqueles que querem ter seus produtos prontos até janeiro — afirmou Fabian Behnke, responsável pelas contas estratégicas da Vanguard na Alemanha. —Já fechamos algumas parcerias e estamos conversando neste momento com várias outras seguradoras, corretoras e bancos.
A BlackRock está trabalhando com bancos e neocorretoras para oferecer acesso a ETFs e fundos de gestão ativa, além de investimentos em mercados privados por meio de suas plataformas.
Apesar das manchetes negativas envolvendo o crédito privado, o setor conseguiu pressionar o governo para incluir os ELTIFs nas novas contas. Segundo Thomas Richter, diretor-presidente da BVI, a natureza de longo prazo desses produtos os torna adequados ao novo modelo.
— O fato de a Alemanha não estar simplesmente proibindo as coisas é o que levou ao entusiasmo que estamos vendo — disse Richter em entrevista.
Embora a expectativa seja de que os novos aportes beneficiem o setor financeiro como um todo, eles também introduzirão mais concorrência para as seguradoras, que durante muito tempo dominaram o mercado de anuidades vitalícias com capital garantido. Os poupadores ainda terão a opção de investir em produtos semelhantes, com garantia, além das novas contas de investimento.
Provavelmente há cerca de € 225 bilhões (US$ 260 bilhões) em recursos aplicados no sistema Riester, e mais de um quarto desse montante deverá migrar para o novo modelo, estimaram as consultorias Sirius Campus e Aeiforia em um relatório publicado em maio.
— As neocorretoras provavelmente vão conquistar o maior número de novos clientes entre investidores mais ricos e mais jovens — afirmou Philip Franck, sócio da consultoria ZEB em Frankfurt.
Ainda assim, a Allianz, maior seguradora da Alemanha, afirma que oferecerá uma variedade de produtos, com e sem garantias. Empresas concorrentes — como a neocorretora Trade Republic, que recentemente passou a oferecer acesso a um fundo de crédito privado a partir de apenas € 1 — também estão se preparando para uma forte competição.
No início deste ano, a State Street firmou parceria com uma corretora digital controlada pelo Commerzbank, da Alemanha, para oferecer um ETF de ações com baixas taxas. A gestora também está negociando com outras plataformas alemãs para ampliar ainda mais sua distribuição no país, afirmou Prendergast, da State Street.
A necessidade de reforma já é evidente há muito tempo na Europa. À medida que a expectativa de vida aumenta e as taxas de natalidade caem, a sustentabilidade dos sistemas previdenciários é colocada cada vez mais à prova.
Na Alemanha, haverá apenas duas pessoas em idade ativa para cada aposentado dentro de uma década, enquanto as taxas de juros também permanecem baixas em comparação com os padrões históricos.
Após duas guerras mundiais, o sistema previdenciário do país já passou por reformas, mas uma participação maior dos próprios alemães na formação de sua aposentadoria parece inevitável no próximo capítulo.
—Os alemães conhecem esse sistema há mais de 130 anos, desde Bismarck; o Estado cuidar das aposentadorias fazia parte do DNA deles — afirmou Richter, da BVI. — Esse sistema está lentamente nos consumindo. As reformas são um enorme passo para a Alemanha, mas ainda estamos atrasados em relação ao que precisa ser feito.




