Flávio Bolsonaro mandou emenda para ONG ligada à milícia dos irmãos Brazão, assassinos de Marielle

PF investiga senador e pré-candidato à Presidência por ter mandando emenda parlamentar de R$ 199 mil para entidade comandada por condenados no homicídio de Marielle e Anderson Gomes

As engrenagens que movem o submundo da política carioca e as estruturas das milícias da Zona Oeste do Rio de Janeiro voltaram a colidir no gabinete do clã Bolsonaro. A Polícia Federal colocou sob forte escrutínio o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), atual pré-candidato à Presidência da República, após rastrear o destino de uma emenda parlamentar no valor de R$ 199 mil. O dinheiro público teve como destino final o Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (Ifop), uma organização não governamental sediada em uma sala comercial na Taquara, reduto eleitoral e área de histórica influência dos irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, mandantes intelectuais do assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes.

De acordo com o relatório da PF, o repasse financeiro não foi um mero acaso burocrático, mas sim o resultado de uma articulação direta de Robson Calixto Fonseca, conhecido como “Peixe”. Policial militar da reserva e ex-assessor de Domingos Brazão no Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ), Peixe também foi condenado por organização criminosa no âmbito do caso Marielle. Ele é apontado pelos investigadores como o operador de bastidores responsável por atuar na “defesa de interesses espúrios” do grupo dos Brazão. Na época da liberação da verba, no fim de 2023, a participação dos irmãos no homicídio da vereadora ainda não havia sido desnudada pela PF, o que só ocorreu com a prisão da dupla em março de 2024.

Quebra de sigilo e a bilionária fábrica de emendas

A descoberta do envolvimento de Flávio Bolsonaro e de outros parlamentares com os interesses da rede dos Brazão ocorreu por meio de um desdobramento direto da investigação do caso Marielle. Ao quebrar o sigilo telefônico de Peixe, a Polícia Federal deparou-se com um vasto esquema de desvio de verbas públicas federais por meio de ONGs de fachada. As mensagens analisadas revelaram que o PM da reserva operava como um captador de recursos para entidades controladas pela milícia, servindo para angariar um “patrimônio potencialmente incompatível com suas fontes de renda lícitas” para o clã criminoso.

modus operandi detalhado pela PF consistia em fazer com que Peixe entrasse em contato com deputados federais e senadores para cavar o direcionamento de emendas a essas entidades. O volume de dinheiro movimentado pela engrenagem é assombroso: entre 2020 e 2024, esse conjunto de organizações captou nada menos que R$ 268 milhões em repasses de parlamentares.

Após a indicação política das emendas, os ministérios liberavam os recursos federais na conta das ONGs. Em seguida, os gestores dessas entidades eram cobrados por Peixe a pagar despesas estritamente pessoais ou políticas do grupo dos Brazão. As conversas interceptadas trazem exemplos explícitos dessa promiscuidade financeira:

  • Bicicletas e helicóptero: Em dezembro de 2023, Peixe exigiu que o representante de uma das ONGs beneficiadas providenciasse um helicóptero e comprasse 20 bicicletas. Duas semanas depois, em 17 de dezembro, Chiquinho Brazão utilizou essas mesmas bicicletas como brinde em um evento político em Jacarepaguá para alavancar a candidatura de seu sobrinho à Câmara Municipal.
  • Depósitos familiares: Em outro trecho da apuração, o operador da milícia ordenou que a chefia da ONG depositasse R$ 100 mil diretamente na conta bancária de uma empresa cuja única sócia é a sua própria filha, enviando os comprovantes de transferência por mensagem de celular.

O rastro do dinheiro: de Flávio Bolsonaro ao salão de beleza

No caso específico que atinge o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, os investigadores identificaram uma troca de mensagens direta entre Peixe e uma assessora do gabinete de Flávio em 24 de outubro de 2023. O lobby do miliciano foi fulminante: os dados do sistema de pagamentos do governo federal comprovam que, pouco mais de um mês depois, em 29 de novembro de 2023, o Ifop recebeu a bolada de R$ 199 mil carimbada pelo senador.

A ONG beneficiada possui laços profundos com a família criminosa. Criada em 2008 sob o pretexto de desenvolver projetos de futebol para crianças carentes, a Ifop foi agraciada com o título de utilidade pública na Câmara Municipal do Rio pelas mãos do vereador Waldir Brazão (União). Além do dinheiro de Flávio, a entidade abocanhou, em agosto de 2024, uma emenda ainda maior, de R$ 1,5 milhão, enviada por Chiquinho Brazão quando este ainda exercia o mandato de deputado federal antes de ser cassado e preso.

Ao analisar a prestação de contas que o Ifop enviou ao Ministério do Esporte, a PF descobriu que o dinheiro da emenda de Flávio Bolsonaro tomou caminhos suspeitos:

  • Parte das verbas foi repassada para uma empresa registrada em nome da dirigente de uma segunda ONG, que a PF já sabe que também era abastecida pelo esquema de Peixe.
  • Outra fatia do dinheiro foi transferida para uma suposta empresa de consultoria sediada em Águas Claras, região administrativa de Brasília. Ao checarem o endereço fiscal da firma, os agentes constataram que no local funciona, na realidade, um salão de beleza.

Ingressos para o Sambódromo e pedidos de mais dinheiro

A intimidade entre o operador da milícia e o gabinete de Flávio Bolsonaro ia muito além da partilha de verbas orçamentárias. Mensagens de fevereiro de 2024 revelam a assessora do senador cobrando de Peixe quatro ingressos para assistir ao desfile das campeãs no Sambódromo do Rio de Janeiro, um agrado que, segundo a Polícia Federal, foi prontamente atendido pelo assecla dos Brazão.

A parceria era tão sólida que, mesmo após a prisão dos irmãos Brazão e o avanço das investigações, o grupo tentou repetir a dose. Exatamente um ano após o primeiro repasse, em 6 de novembro de 2024, Peixe voltou a procurar a mesma assessora de Flávio Bolsonaro, implorando por um novo aporte financeiro: “Peça para o senador agraciar o instituto para que o projeto não termine”, escreveu. Dessa vez, contudo, não houve registros de novas transferências.

O que dizem

Ao jornal O Globo, do Rio de Janeiro, para esclarecer os laços de seu gabinete com os mandantes do crime que chocou o país, Flávio Bolsonaro blindou-se por meio de sua assessoria de imprensa. O senador afirmou textualmente que “não é papel do parlamentar auditar como as suas emendas são utilizadas por terceiros”. Em nota oficial, o pré-candidato declarou que o objetivo do repasse era meramente social e que “relatórios, vídeos e fotografias apresentados sugerem que o trabalho do Ifop foi um sucesso”.

Por sua vez, o Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (Ifop) negou qualquer “relação formal ou informal” com Peixe ou com a família Brazão, sustentando que os recursos foram aplicados integralmente nas escolinhas de futebol e que as contas foram submetidas ao governo federal, incluindo a devolução de saldos excedentes.