Matador do cinema em SP está livre e aterroriza trabalhadores de shopping de Salvador

Matador do cinema em SP está livre e aterroriza trabalhadores de shopping de Salvador

Dois anos após deixar o sistema de custódia por decisão da Justiça da Bahia, o ex-estudante de Medicina Mateus da Costa Meira, de 51 anos, condenado pelo massacre ocorrido no Morumbi Shopping, em São Paulo, voltou a frequentar regularmente o Shopping Barra, um dos principais centros comerciais de Salvador. Segundo relatos, ele costuma circular por cafeterias, livrarias e até salas de cinema.

Segundo a coluna True Crime, do Globo, a presença de Mateus passou a preocupar frequentadores e funcionários, que compartilharam fotografias dele em grupos de WhatsApp. O shopping, localizado em uma das áreas mais movimentadas da capital baiana, recebe cerca de 50 mil visitantes por dia.

O crime

Mateus foi condenado pelo ataque cometido em 1999 durante uma sessão do filme Clube da Luta. Armado com uma submetralhadora, ele matou três pessoas e feriu outras nove. No primeiro julgamento, a defesa tentou provar que ele era inimputável por sofrer de transtornos mentais, mas uma junta de psiquiatras concluiu que ele compreendia plenamente o caráter ilícito de seus atos. Em 2003, foi condenado a 120 anos de prisão.

Em 2004, foi transferido para Salvador para cumprir pena perto da família. Na Penitenciária Lemos Brito, acabou respondendo por tentar matar um companheiro de cela com golpes de tesoura. Durante esse novo processo, a defesa voltou a alegar que ele era inimputável. O entendimento acabou sendo acolhido pelo Tribunal do Júri, que determinou sua internação por tempo indeterminado no Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico da Bahia.

Não demonstrava arrependimento

Ao longo da internação, laudos psiquiátricos registraram que Mateus não demonstrava arrependimento considerado genuíno nem empatia pelas vítimas do massacre. Em uma das avaliações, afirmou que seu maior arrependimento era pelas consequências sofridas por ele próprio e por sua família. Em outra, lamentou não ter esperado alguns meses para cometer o ataque, dizendo que, se tivesse concluído o curso de Medicina, teria direito a uma cela especial.

Em 2024, a Justiça autorizou sua desinternação, determinando que os pais fossem responsáveis por acompanhar o tratamento psiquiátrico e administrar a medicação. Segundo a reportagem que revelou o caso, porém, Mateus mora sozinho em Salvador, apesar da decisão prever que residisse com os familiares.

“Também sairia correndo”

A soltura foi contestada pelo Ministério Público da Bahia. Entre os profissionais que defendem que Mateus não deveria estar em liberdade está a psiquiatra Grace Adriana Lopes Conceição, que o acompanhou durante quase um ano no Hospital de Custódia. Para ela, o principal risco não está em um possível transtorno psicótico, mas em traços de personalidade antissocial, marcados por frieza, ausência de empatia, inteligência e capacidade de planejamento.

A médica afirma que existe risco de novos crimes e admite sentir medo do ex-paciente. Durante as avaliações, soube que Mateus mantinha uma lista de pessoas que pretendia matar e chegou a perguntar se seu nome constava nela. Ele respondeu que não. Mesmo assim, a psiquiatra diz que evitaria qualquer contato com ele. “Se o encontrasse hoje no shopping, também sairia correndo”, declarou, reforçando que, em sua avaliação, Mateus deveria permanecer internado em um ambiente monitorado.

O advogado Vivaldo Amaral Adaes, que atuou na defesa de Mateus, também afirmou ter encerrado seu trabalho após a soltura por receio de represálias. Segundo ele, a lista de possíveis alvos incluía antigos defensores, integrantes do júri, jornalistas, funcionários do sistema prisional e profissionais responsáveis por laudos desfavoráveis.

Os pais de Mateus, o Ministério Público da Bahia e o Tribunal de Justiça da Bahia foram procurados para comentar a situação, mas, segundo a reportagem original, não responderam aos contatos.

Revista Forum