Relatório define oficial da reserva como “grande amigo” de operadores de valores presos em Operação do Ministério Público de São Paulo
O coronel da reserva Luiz Carlos Pereira Martins (imagem em destaque) “parece abrir portas” da Polícia Militar de São Paulo (PMESP) para Cléber Azevedo dos Santos e o grupo criminoso do qual o empresário faria parte, afirma trecho de relatório da Polícia Federal (PF) obtido pelo Metrópoles.
O documento define Pereira Martins como “grande amigo” de Cléber e de Robson Martins de Souza. Os dois foram presos na semana passada, durante a Operação Janus, deflagrada pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP), com apoio operacional da PM, contra estrutura suspeita de lavar dinheiro, corromper policiais e prestar serviços financeiros a integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC).
“O coronel é grande amigo de Cléber e Robson e com eles fez viagens, sendo, por si só, fato que chama muito a atenção”, diz a Delegacia de Repressão à Corrupção e aos Crimes Financeiros da PF.
Na sequência, o documento afirma que o coronel “parece abrir portas na corporação PMESP para Cléber e o grupo”.
A análise foi baseada em mensagens, áudios, fotografias e documentos extraídos de celulares apreendidos com os operadores (veja galeria acima). O relatório também examinou a hipótese de pagamentos a oficiais da PM, mas informou não haver elementos suficientes para confirmá-la quando o documento foi concluído, em novembro de 2024.
“Turma de coronéis”
Em 31 de agosto de 2023, Pereira Martins convidou Cléber para uma noite em um estabelecimento chamado UNA e afirmou que levaria outros oficiais.
“Bora tomar umas no UNA hoje à noite!!! Vou levar uns amigos da minha turma de coronéis lá hoje”, escreveu.
Cléber respondeu que já tinha compromisso, mas agradeceu o convite. “Não vai faltar oportunidade”, disse o coronel.
As mensagens mostram convites para festas, viagens, jantares e confraternizações. Em outubro daquele ano, Pereira Martins perguntou a Robson onde seria o encontro do grupo e brincou que Cléber deveria estar “com a cabeça cheia”. Horas depois, voltou a procurá-lo questionando se estava “com o [tele]fone grampeado???”.
A PF identificou conversas entre Pereira Martins e Robson de outubro de 2022 a novembro de 2023. A maior parte era composta por cumprimentos, mas havia também combinações de viagens e encontros.
No caso de Cléber, a proximidade era mais antiga. O relatório destaca que o operador “sempre viaja com o coronel Pereira Martins”.
Colônias dos oficiais
Pereira Martins aparece no site oficial da Associação dos Oficiais da Polícia Militar do Estado de São Paulo (AOPM) como diretor de Colônias, cargo que ocupa desde 2025, com previsão de encerramento em 2029.
Conversas analisadas pela PF mostram o coronel tratando com os operadores sobre o uso das estruturas de lazer da entidade. Em setembro de 2020, ele sugeriu viagem a Campos do Jordão.
“Próximo feriado, podemos ir para Campos do Jordão, na Colônia dos Oficiais!!! Tudo mais em conta, todos como associados”, escreveu.
Cléber respondeu que iria com o coronel. Em seguida, enviou montagem com a fotografia do oficial e a inscrição “Força Pública”.
Já em setembro de 2023, Robson perguntou se a colônia de Boraceia estava reservada para o feriado. Pereira Martins confirmou e afirmou que iria se encontrar, pessoalmente, com o interlocutor.
Na sequência, Robson perguntou se o coronel preferia espetinho de carne ou pastel. “Tanto faz”, respondeu o oficial.
As conversas indicam que Pereira Martins facilitava o acesso dos amigos às colônias. O relatório, porém, não afirma que as reservas tenham sido irregulares nem informa quem pagou pelas estadas.
A proximidade descrita pela PF também aparece em fotografias publicadas pela esposa do coronel.
Imagens obtidas com exclusividade pelo Metrópoles mostram Pereira Martins celebrando a chegada de 2023 com Cléber e familiares. “Amigos sempre juntos”, escreveu a companheira do oficial na legenda.
Em outro registro, o coronel e a esposa dividem a mesa de um restaurante com Cléber e o advogado Antonio Carlos Ubaldo Júnior, também preso na Operação Janus.
As postagens foram retiradas do ar. Os registros reforçam a convivência, já descrita nos relatórios, das famílias, viagens planejadas e encontros mantidos ao longo dos anos.
Cléber e Robson também participavam do grupo de WhatsApp “Aniversário general”, aparentemente criado pela esposa de Pereira Martins e ativo ao menos até novembro de 2023. Segundo a PF, o espaço tratava de “assuntos pessoais, festas, etc.”.
Banco do crime
Cléber e Robson foram presos em 21 de julho durante a Operação Janus. Ao todo, 11 investigados foram capturados, entre 18 pessoas que tiveram a prisão preventiva decretada.
Segundo o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MP, o grupo mantinha estrutura clandestina que recebia dinheiro em espécie e devolvia os valores por meio de transferências realizadas por empresas e contas de terceiros.
O mecanismo, chamado pelos investigados de troca de “TED por vivo”, permitiria inserir no sistema bancário recursos criminosos sem revelar o verdadeiro proprietário.
Os promotores afirmam que a organização mantinha uma espécie de “banco” para integrantes relevantes do PCC. O grupo também teria recorrido a tribunais do crime, comprado dólares para faccionados e movimentado valores destinados a policiais.
Cléber e Robson já haviam sido atingidos por investigações anteriores, entre elas as operações Fractal e Bazaar. A Janus aprofundou os indícios sobre o elo financeiro do grupo com a facção.
Coronel não foi preso
Pereira Martins não foi alvo da Operação Janus, não teve a prisão decretada nem aparece entre os acusados de integrar o núcleo financeiro.
A PF também não concluiu, no relatório de 2024 obtido pela reportagem, que ele tenha recebido propina ou participado das movimentações de dinheiro atribuídas ao grupo.
Os documentos demonstram, porém, proximidade mantida durante anos, com viagens, festas, uso de colônias, convites envolvendo outros coronéis e oferta de contatos.
O Metrópoles já mostrou que a relação continuou mesmo depois de os operadores terem sido alvos da Operação Fractal, deflagrada em outubro de 2022 para investigar remessas ilegais ao exterior por meio de empresas e criptomoedas.
O que dizem SSP e PM
A Polícia Militar e a Secretaria da Segurança Pública (SSP) foram questionadas sobre a existência de apuração interna sobre o caso e disseram, em nota conjunta encaminhada à reportagem, “não compactuar com desvios de conduta” de membros das forças de segurança.
Acrescentaram já terem adotado providências para apurar “os fatos mencionados na investigação” do MPSP.




