Economista que participou de audiência diz que tom político de Flávio Bolsonaro destoou de argumentação técnica e causou desconforto na mesa diretora durante audiência sobre tarifaço.
Assessores de Flávio Bolsonaro (PL) foram repreendidos ao tentar produzir vídeos e fotos para lacração nas redes durante a fala de pouco mais de 4 minutos do senador na audiência sobre o tarifaço no Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês).
A informação foi divulgada pelo economista e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) Gustavo Pessoa, que participou da audiência, em entrevista à agência Sputnik Brasil.
Pessoa afirmou que a fala política de Flávio causou desconforto na mesa diretora, já que a audiência era focada mais em questões técnicas, e o comportamento da equipe irritou as autoridades que conduziam a sessão.
“Nós percebemos que o discurso do Flávio Bolsonaro foi o discurso mais politizado de todas as sessões. E nós sentimos um certo desconforto da mesa diretora que estava ali organizando todas as sessões. Nós vimos, pelos movimentos corporais, um olhar e o outro, como se aquilo tivesse destoando de toda a sessão e que eles não estavam confortáveis. Inclusive, até houve uma reprimenda da mesa diretora contra o pessoal da equipe do Flávio Bolsonaro, porque eles estavam gravando, estavam tirando fotos”, contou o economista.
Segundo Pessoa, Flávio Bolsonaro chegou atrasado à audiência, acompanhado do irmão, Eduardo Bolsonaro (PL-SP), e outros três assessores.
“Eles chegaram atrasados, atrasaram um pouco o início da sessão e foi o único discurso em todo esses dois dias que teve um peso muito mais politizado. O Flávio Bolsonaro não chegou com dados concretos, nem argumentos robustos. Ele acabou se baseando apenas em política”.
“Merd*. Não se ajuda”
Fiel escudeiro de Eduardo Bolsonaro, Paulo Figueiredo atacou a estratégia da equipe de comunicação levada por Flávio Bolsonaro à audiência.
Para Paulo Figueiredo, Flávio Bolsonaro não foi capaz de fazer o básico para repercutir sua participação na imprensa, e o release feito por sua equipe de comunicação foi “criado e escrito pelo ChatGPT”.
“Flávio veio aos EUA, falou de tarifa […] e ele publicou um videozinho bem mais ou menos, a assessoria dele publica um release escrito e feito claramente pelo ChatGPT, não há uma entrevista de quebra-queixo, não temos uma imagem para passar aqui hoje, não tem uma entrevista coletiva, a imprensa não recebeu a íntegra do que ele falou dentro do USTR e, como não pode ser gravado, não se sabe exatamente o que ele falou… eu vou te falar, a gente tenta sentar e deixar o nego trabalhar e fazer o que tem que fazer, mas puta merda, campanha desgraçada, nego não se ajuda”.
Governo Lula acusa Flávio Bolsonaro de “traição à Pátria”
A Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom) emitiu nota oficial na terça-feira (7) repudiando a participação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em audiência pública do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), em Washington, convocada para discutir a imposição de tarifas contra o Brasil.
O governo Lula acusou Flávio Bolsonaro de legitimar as alegações norte-americanas contra o país e de agir com “claro objetivo eleitoreiro”, enquanto representantes de quatro ministérios negociavam, no mesmo momento, a reversão das tarifas com técnicos do próprio USTR. A nota concluiu com uma frase direta: “Convocar uma potência estrangeira a pressionar o próprio país é traição à Pátria.”
Governo Lula repudia atuação de Flávio Bolsonaro nos EUA
A nota da Secom não deixou margem para interpretação. O governo federal afirmou que, entre os 34 brasileiros inscritos para falar na audiência do USTR, Flávio Bolsonaro foi o único que não se posicionou contra as tarifas. Dos 78 participantes totais, 63 se manifestaram contra as medidas e apenas 15 foram favoráveis. O senador ficou fora de ambos os grupos: limitou-se a pedir o adiamento da aplicação das tarifas, sem contestar as justificativas apresentadas pelo governo norte-americano para taxar produtos brasileiros.
Para o Palácio do Planalto, essa escolha não foi acidental. A nota afirma que Flávio “optou por legitimar os resultados de uma investigação injusta contra empresários e trabalhadores do nosso país” e que não negou que “a campanha promovida por sua família e seus aliados esteve na origem do tarifaço contra o Brasil”. O governo também cobrou que o senador não reconheceu, na audiência, ter “errado ao contrariar os interesses do povo brasileiro”.
O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Márcio Elias Rosa, foi direto ao criticar a politização do episódio: “Não há espaço para discussão de natureza política, eleitoral, egoística, ou qualquer outro interesse que não seja o interesse do Brasil, a defesa da soberania e a defesa dos reais interesses do Brasil.” A frase resume a postura oficial diante de uma situação que o governo trata como linha vermelha: a separação entre fazer oposição ao governo e fazer oposição ao país.
A Secom ainda criticou a defesa de Flávio pela revogação de decretos sobre plataformas digitais, que buscam combater conteúdos criminosos e violência contra mulheres. Para o governo, essa posição “só interessa a dois grupos: quem lucra com o caos e quem precisa dele para cometer crimes”.
A diplomacia oficial brasileira e a defesa do país
Enquanto Flávio Bolsonaro discursava no USTR, representantes do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, do Itamaraty, do Ministério da Justiça e do Palácio do Planalto se reuniam com técnicos do mesmo escritório americano para tentar reverter as tarifas. O contraste foi sublinhado pela própria nota do governo, que destacou a simultaneidade dos dois eventos como forma de evidenciar a diferença entre a atuação oficial e a do senador.
O ministro Márcio Elias Rosa informou que as negociações ocorrem de forma ininterrupta desde julho de 2025 e que o governo brasileiro tem demonstrado, nas tratativas, que as tarifas “não têm fundamento”. Ele afirmou que o Brasil não sairá da mesa de negociações e que a orientação do presidente Lula é clara: manter as discussões restritas à questão tarifária, sem ampliar o escopo para outros temas.
Um desses temas é o etanol. Em documento de 86 páginas enviado ao USTR em 2 de julho, Flávio Bolsonaro defendeu a redução das tarifas brasileiras sobre o etanol norte-americano, descrevendo a relação tarifária entre os dois países como “assimétrica”. O governo rejeitou a proposta. Márcio Elias Rosa afirmou que fazer concessões nesse setor representaria um “risco” para a indústria sucroalcooleira do Nordeste e que o açúcar brasileiro já enfrenta sobretaxa de quase 100% nos Estados Unidos. “Não dá para dissociar as duas cadeias”, disse o ministro. A posição foi reforçada por entidades do setor que participaram da própria audiência do USTR, como a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil.
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